06 Fevereiro 2010

Remorsos Velhos


(Cemitério de Montparnasse - París)

Os olhos turvos como o inverno
Na solidão da noite pairam, imersos,
E na escuridão vagam, perversos,
Sondando as almas pelo inferno.

Ingratidão veste este novo terno
E, na romaria negra dos regressos,
Presenteia os aflitos com esses versos -
Poeta do sombrio pátio interno -

E guarda'inda essas funestas dores
Num corpo com Deus em nada parecido -
A negra flor em um ermo cemitério -

Deixado só sem velas e nem flores,
Um epitáfio ao mármore esquecido,
Ornado por um seco vaso velho.

Retrato (Cecília Meireles)

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Declamado por Paulo Autran

30 Janeiro 2010

Ítaca (Konstantinos Kaváfis)

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Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Poseidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Poseidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Konstantino Kavafis (1863-1933) in: O Quarteto de Alexandria

Tradução - José Paulo Paes

Fonte Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=EQsy1BIoyrg

Eros e Psique (Fernando Pessoa)




...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

C... (Alváres de Azevedo)

Himeneu travestido assistindo a uma dança em honra a Príapo” (Poussin). Datado entre 1634 e 1638.


Oh! não tremas! que este olhar, este
abraço te digam quanto é inefável — o de
abandono sem receio, os inebriamentos de
uma voluptuosidade que deve ser eterna.

(GOETHE, Fausto)


Sim! coroemos as noites
Com as rosas do himeneu...
Entre flores de laranja
Serás minha e serei teu!

Sim! quero em leito de flores
Tuas mãos dentro das minhas...
Mas os círios dos amores
Sejam só as estrelinhas.

Por incenso os teus perfumes,
Suspiros por oração
E por lágrimas... somente
As lágrimas da paixão!

Dos véus da noiva só tenhas
Dos cílios o negro véu...
Basta do colo o cetim
Para as Madonas do céu!

Eu soltarei-te os cabelos...
Quero em teu colo sonhar...
Hei de embalar-te... do leito
Seja lâmpada o luar!

Sim!... coroemos as noites
Da laranjeira co’a flor...
Adormeçamos num templo
— Mas seja o templo do amor.

É doce amar como os anjos
Da ventura no himeneu:
Minha noiva, ou minh’amante,
Vem dormir no peito meu!

Dá-me um beijo, abre teus olhos
Por entre esse úmido véu:
Se na terra és minha amante,
És a minh’alma no céu!


Alvares de Azevedo (em "Lira dos vintes anos", publicada em 1853)

11 Outubro 2008

O Movimento das Estrelas


A luz entra fosca e à força
Entre as ondas que me acordam
A contragosto sobre as conchas
Quando cismo e durmo em plena praia
Vendo o brilho sobre os bancos de areia
Das espumas candeias do mar revolto.
Aguardam por entre elas tantas lendas -
Piratas, cem fragatas e sereias -
Que nadam no recôndito daquela enseada,
Enfileiradas em meus sonhos que se vão
Embalados pelo vento-canto lá da aldeia.
Aqui sopra um vento sonoro nas palmeiras
Quando a lua entra por entre as folhas negras.
O farfalhar rasteiro da palha seca,
A duna a se mover pela madrugada inteira
Como o arrasta-pé no baile,
Como o chocalhar da cascavel ligeira.
E quando a noite é assim, meu bem, eu caço estrelas
Por um céu de poema de Bilac.
Caço as grandes, as brilhantes, as pequenas,
E risco com o dedo em riste a Via Láctea.
Nas manhãs seguintes,
A brisa quente varre a varanda da casa
Repleta de ócio depois do almoço,
E já não sei se é ela ou o leque de minha avó
Que move a velha cadeira de balanço.
Como nunca soube se era o vento lá na praia,
Aquele vento nas ondas, nas folhas, na duna,
Que também movia as estrelas no céu.

06 Outubro 2008

Remorso

Eu preciso escrever!
Escrever sobre essa dor,
Mas não somente.
Essa dor vívida, pungente;
Essa chaga em brasa me queimando.
Dor lancinante, vigorosa,
Sentida em verso e prosa
Que se agarrou ao meu peito
E cravou suas oito garras negras
Do arrependimento.

Eu preciso escrever na dor certeira,
Flecha ligeira
Que meu corpo transpassou.
Na dor moléstia grave,
Essa doença,
Essa ausência,
Razão do meu abatimento.
Sigo andando pelas ruas,
Chagas abertas,
Remoendo a dor que inunda,
A dor funesta,
A dor da morte prematura
Feito esse amor inerte e frio
Preso ao coração por um pavio -
Um bloco bruto de granito negro.
E me debato pela escuridão,
Moribundo insone,
Lutando contra a minha própria alma
Uma batalha que já sei perdida.
Mas fugir no som do mundo
Para sufocar essa saudade
De nada adianta, pois
Uma dor renascida me invade
Nas madrugadas longas
A gritar teu nome.

28 Setembro 2008

Velho Carvalho



O relógio marca 6.
Tempo qu'inda dorme.
O corpo que se recusa
A admitir o fim do sono.
Espreguiçam-se
Os membros outrora imóveis.
São como árvores - velhos carvalhos
De já tão secos pelo tempo
E pelo frio e pelo tédio.
Vão cultivando sulcos profundos,
marcas do tempo que me acorda às 6.
Velho carvalho, oco e resistente,
Vergalhões de aço na madeira inerte
Hão de comparar, nitidamente,
Que a vida rompe num estanque,
E previnir teu fim, teu climatério,
Sem deixar que o vento te arranque
Desse espaço.

O Silêncio da Ausência


Oh, rua que na noite

insone

Me consome os olhos a vagar

no escuro.

Oh, noite em ventos insolentes,

Uivantes arrepios pelas frestas

da janela

Nos mesmos cantos e calçadas

Os mesmos bares, as mesmas caras

E os velhos "bem, voltemos para casa"

Quando já se vai alta a

madrugada

E os intervalos dos carros.

Ao longe passos e

gargalhadas

De um grupo que volta ou vai.

E eu já não lamento mais

O silêncio da tua ausência,

A falta dos teu passos

Acompanhando os meus

descompassados.
Já sigo o rumo incerto de

outras vezes,

Às bordas das sarjetas,
Ao hálito do vinho.

E não há em mim razão

ou choro,

Medo ou

infâmia disciplicente.

Só levo comigo essa dor
insana,

Uma saudade sem medidas

Que me calou e se calou

Eternamente.

27 Setembro 2008

A rua dos cataventos (Mario Quintana)




Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Paul Verlaine




De Verlaine para Arthur Rimbaud

Mortal, anjo e demônio, ou melhor, Rimbaud,
Teu lugar no meu livro é o primeiro, como um prêmio;
Tu que um bobo escritor um dia esculhambou
Achando-te um debochado imberbe, um verme, boêmio.

As espirais de incenso e os acordes do alaúde,
Saúdam tua chegada ao templo da memória,
Onde teu nome esplêndido soará em glória,
Pois me amavas, se preciso, até a plenitude.

Serás para as mulheres, sempre, belo e forte,
De uma beleza assim, agreste e sedutora,
Tão cobiçada quanto desvanecedora!

E a história te erguerá triunfante da morte,
P'ra que, apesar de toda a lama, o mundo veja
Teus pés intactos sobre a cabeça da Inveja!

Tradução de José Machado Sobrinho.

14 Setembro 2008

Benção (Charles Baudelaire)

Charles Baudelaire by Gustave Corbert


Quando, por uma lei das supremas potências,
O
Poeta se apresenta à platéia entediada,
Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências,
Pragueja contra Deus, que dela então se apiada:

"Ah! Tivesse eu gerado um ninho de serpentes,
Em vez de amamentar esse aleijão sem graça!
Maldita a noite dos prazeres mais ardentes
Em que meu ventre concebeu minha desgraça!

Pois que entre todas neste mundo fui eleita
Para ser o desgosto de meu triste esposo,
E ao fogo arremessar não posso, qual se deita
Uma carta de amor, esse monstro asqueroso,

Eu farei recair teu ódio que me afronta
Sobre o instrumento vil de tuas maldições,
E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta,
Para que aí não vingue um só de teus botões!"

Ela rumina assim todo o ódio que a envenena,
E, por nada entender dos desígnios eternos,
Ela própria prepara ao fundo da Geena
A pira consagrada aos delitos maternos.

Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante,
Inebria-se ao sol o infante deserdado,
E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante
Há um gosto de ambrósia e néctar encarnado.

Às nuvens ele fala, aos ventos desafia
E a via-sacra entre canções percorre em festa;
O Espírito que o segue em sua romaria
Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta.

Os que ele quer amar o observam com receio,
Ou então, por desprezo à sua estranha paz,
Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio,
E empenham-se em sangrar a fera que ele traz.

Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto
Eis que misturam cinza e pútridos bagaços;
Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto,
E se arrependem pó haver cruzado os passos.

Sua mulher nas praças perambula aos gritos:
"Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me,
farei tal qual os ídolos dos velhos ritos,
e assim, como eles, quero inteira redourar-me;

E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso,
De nardo e mirra, de iguarias e licores,
Para saber se desse amante tão intenso
Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores.

E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias,
Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão;
E minhas unhas, como as garras das Harpias,
Hão de abrir um caminho até seu coração.

Como ave tenra que estremece e que palpita,
Ao seio hei de arrancar-lhe o rubro coração,
E, dando rédea à minha besta favorita,
Por terra o deitarei sem dó nem compaixão!"

Ao céu, de onde ele vê de um trono a incandescência,
O Poeta ergue sereno as suas mãos piedosas,
E o fulgurante brilho de sua vidência
Ofusca-lhe o perfil das multidões furiosas:

"Bendito vós, Senhor, que dais o sofrimento,
esse óleo puro que nos purga as imundícias
como o melhor, o mais divino sacramento
e que prepara os fortes às santas delícias!

Eu sei que reservais um lugar para o Poeta
Nas radiantes fileiras das santas Legiões,
E que o convidareis à comunhão secreta
Dos Tronos, das Virtudes, das Dominações.

Bem sei que a dor é nossa dádiva suprema,
Aos pés da qual o inferno e a terra estão dispersos,
E que, para talhar-me um místico diadema,
Forçoso é lhes impor os tempos e universos.

Mas nem as jóias que em Palmira reluziam,
As pérolas do mar, o mais raro diamante,
Engastados por vós, ofuscar poderiam
Este belo diadema etéreo e cintilante;

Pois que ela apenas será feita de luz pura,
Arrancada à matriz dos raios primitivos,
De que os olhos mortais, radiantes de ventura,
Nada mais são que espelhos turvos e cativos!".

Henry Thoreau

A massa nunca se eleva ao padrão do seu melhor membro;
pelo contrário, degrada-se ao nível do pior.

06 Setembro 2008

Canto 34 (Walt Whitman)



Agora eu conto
O que eu soube no Texas
Em minha juventude
(não vou contar a tomada de Álamo,
não escapou ninguém para contar
a tomada de Álamo,
aqueles cento e cinqüenta estão mudos
ainda em Álamo):
esta é a história do assassinato
a sangue frio
de quatrocentos e vinte moços.

Em retirada tomaram formação
De um quadrado vazio
Com as bagagens como parapeitos,
Novecentos as vidas do inimigo
Que agora os sitiava,
Nove vezes o que tinham em número
E o preço foi cobrado adiantado,
O coronel deles fora ferido
E a munição havia terminado,
Negociaram capitulação com honra
Papel timbrado e assinado,
Entregaram as armas e marcharam
Prisioneiros de guerra.

Eram o orgulho da raça dos rangers,
Inigualáveis em montaria
Rifles, canções, repastos, galanteios,
Enormes, turbulentos, generosos,
Amáveis e orgulhosos,
Barbudos, peles tostadas de sol,
Trajados à moda descontraída
Dos caçadores,
Nenhum contava mais de trinta anos.

No segundo Domingo de manhã
Foram levantados em grupo
e massacrados:
era uma linda manhã de verão,
a faina começou aí pelas cinco e meia
e às oito estava tudo terminado.

Nenhum se quis sujeitar
À ordem de ajoelhar,
Alguns tentaram inutilmente correr
Feito uns alucinados,
Alguns ficaram inabaláveis em pé,
Alguns poucos tombaram de uma vez
Com tiros na fronte ou no coração,
Os mutilados e desfigurados
ainda cavando o chão,
vivos e mortos estirados juntos
onde eram vistos pelos recém-vindos,
uns meio mortos tentavam sair de rastos
e eram então despachados a golpes de baionetas
ou esmagados a coronhas de espingardas,
um jovem com não mais que dezessete anos
agarrou-se ao algoz
até virem dois outros afrouxá-lo
e ficaram os três todos rasgados
e cobertos do sangue do rapaz.

Às onze em ponto
Começou a incineração dos corpos.
Eis aí a história do assassinato
Dos quatrocentos e vinte homens moços.

Contradição


"Eu me contradigo ?

Pois muito bem, eu me contradigo,
Sou amplo, contenho multidões".

Cântico VI (Cecília Meireles)


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

East Coker (T.S.Eliot)

(trecho inicial da parte III)


O escuro escuro escuro. Todos mergulham no escuro,
Nos vazios espaços interestelares, no vazio que o
[ vazio inunda,
Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras,
Generosos mecenas de arte, estadistas e
[ governantes,
Ilustres funcionários públicos, presidentes de vários
[ comitês,
Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos
[ mergulham no escuro,
E escuros o Sol e a Lua, o Almanaque de Gotha,
A Gazeta da Bolsa, o Anuário dos Diretores,
E frio o sentido e perdido o fundamento da ação,
E todos os seguimos no silente funeral,
Funeral de ninguém, pois a ninguém há que enterrar.
Eu disse à minh'alma, fica tranqüila, e deixa baixar o
[ escuro sobre ti,
Pois que aí tudo será treva divina. Como num teatro,
As luzes se apagam para a troca de cenários
Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento de treva sobre treva,
E sabemos que as colinas e as árvores, o distante
[ panorama
E a soberba fachada altiva estão sendo arrastados
[ para longe
— Ou quando, no metrô, um trem se demora entre
[ duas estações
E as conversas se animam e lentamente no vazio
[ tombam
E vês por detrás de cada rosto aprofundar-se o vazio
[ mental
Que semeia apenas o crescente terror de nada haver
[ em que pensar;
Ou quando, sob o éter, o pensamento é consciente,
[ mas consciente de nada —
Eu disse à minh'alma, fica tranqüila, e espera sem
[ esperança
Pois a esperança seria esperar pelo equívoco; espera
[ sem amor
Pois o amor seria amar o equívoco; contudo ainda
[ há fé
Mas a fé, o amor e a esperança permanecem todos à
[ espera.
Espera sem pensar, pois que pronta não estás para
[ pensar:
Assim a treva em luz se tornará, e em dança há-de o
[ repouso se tornar.

27 Agosto 2008

Janela das Lágrimas


Para lá dos montes afastados havia outro mundo, um mundo temeroso
GRACILIANO RAMOS

Deixei a luz fosca daquele luar
Na curva do rio que embalava meu sono.
Na esteira de estreitas estradas
Pisei as folhas cadentes do outono.

Deixei um mundo sem paz e sem dono,
E meus pés, levantando a poeira,
Deixaram um choro pungido
Sob um teto sem eira e nem beira.

Pra trás, as velhas casas da aldeia,
As poucas taipas caiadas de branco.
Levei comigo uma dor escondida
Pelo rio sem calado e barranco.

E o rapaz daquele desejo franco
Seguiu a pintar sua nova aquarela
Sem lembrar das lânguidas lágrimas
Debruçadas em uma seca janela.

Nem se voltou ao cruzar a capela;
Afastado da luz de seus olhos castanhos,
E levando nos dele só um opáco vazio
Sobre um peito marcado de lanhos.

Se da janela, voltada aos rebanhos,
Das amargas lágrimas brotar a semente
Da saudade daquele amor que se foi,
Eu peço ao meu Deus tão somente

Que a dor desse corte se ausente,
E que a flor que secou por meus planos,
Floresça na terra frondosa,
Diferente da lívida rosa dos últimos anos.


22 Agosto 2008

A Folha Seca


Se hoje oscilo como a folha morta
Que do galho pendeu e se perdeu
Em rodamoinhos poeirentos,
Em espirais nos lixos de um beco.
Se tudo em mim é confuso
E o meu coração nada sente,
E minha mente não se decide
Entre a calma e o tumulto.
Se minha sede não se esgota
E o medo ronda a minha porta
Num temerário “é o fim de tudo”.
Se minh’alma anda aos tropeços,
Aos soluços num choro entrecortado
Que sem palavras me deixam mudo,
Caminhando, pelas noites, sem paz,
Perseguindo uma ilusória alvorada.
Se é de frio que me cortam
As lâminas de uma solidão povoada
Ou se são tolices e nada mais.
Quem se importa?
Os que não se importam comigo partiram,
E se os que me importam voltassem
E me dessem o diamante de seus olhares,
Ainda assim eu seria a folha agarrada ao galho.
Ao galho seco da árvore, da vida,
Aguardando o vento derradeiro
Que me libertaria pelos ares.

11 Agosto 2008

Infância e Temporal


“Menino à Janela” – Murillo, Galeria Nacional de Londres



Grades de ferro e temporal.
E eu olhava o mundo da janela
Embaçada pela minha respiração.
Lá fora, o céu cinzento.
Lá dentro, solidão de menino
Vendo as pessoas correndo da chuva,
Tentando um abrigo sob as marquises.
Quanta tolice!, eu pensava...
Quando o que eu mais queria
Era correr com o vento.
E a praia logo ali como um convite,
E o mar em ondas me chamando,
Sucessivas vezes quebrando
Meu nome e sobrenome sobre as pedras.
Mas eu ali, preso e casto, pois
Nem uma gota de orvalho maculara
O desejo por detrás daquelas grades.
Riscos de fogo pelo céu invadem,
E conto o tempo entre clarões e trovões,
Agarrado ao leme do meu návio-janela
Mãe, solta-me na chuva, por favor.
Ser criança é um temporal de fim de tarde...
Imaginação que urge e arde,
E quando se dá conta já passou.