10 Julho 2008

Minhas Faltas

Que falta eu sinto de tudo...
De tudo que não vivi.
Saudades de um tempo perdido;
Que falta tu fazes em mim
Que falta no mundo de hoje?
Num tempo em que ninguém faz falta,
Eu canto, sentido, a minha;
Que falta tu fazes em mim.
Não vou abraçar madrugadas
Nem transbordar o teu vinho.
Não vou apontar estrelas
Nem renovar meus carinhos.
Num canto a minha alma vagueia,
E ninguém mais pode sentir,
Na solidão sonora e silente,
Que falta tu fazes em mim.

11 Janeiro 2008

Carambola

Lanço-te meu beijo
Como um pássaro tonto
Nos torvelinhos de uma tempestade.
Lanço-me em teus braços
Em espirais de desejo,
Tonto de saudade.

Ergo-me sem esperanças
Na vívida hora dos sonhos
A espreitar tua vontade.
Doce, lânguida e fremente
Senhorita dos moinhos,
Vento da minha liberdade.

Menina esperta e formosa,
Beleza de ave, morena.
Negros cachos de eternidade.
E eu, cavaleiro andante,
Sofro atrás desses passos
Por toda essa mocidade.

Sigo o sabor carambola
Na boca que arde, e demora
Na longa hora que invade
O meu sonho de infante.
Da menina que segue faceira
Fugindo de mim só por maldade.

07 Janeiro 2008

A Visita



Fechou-me a solidão como mortalha,
Fazendo paralíticos os meus sentidos.
Num negro e vasto limbo de amarras
Abateram-se sobre esses ombros lisos,
Fardos, pesos soltos a reabrir as chagas.
A Depressão, silenciosa Dama dessas horas,
Minha visita no corredor das madrugadas,
Que se por acaso me encontra entorpecido,
No leito sujo, quase adormecido
Por sobre pilhas de livros, cantando
Uma história que não conto agora,
É porque é uma velha conhecida
A visitar o paciente desse quarto.
Mas não traz sopas nem ungüentos
Só a Solidão em pratos rasos.
E como lhes transbordam os lamentos
Ao sabor acre daquela tirana senhora
Espreitando-me ao pé da cama
E aguardando a minha morte
Que não chega, mas também não tarda.

Afasta-te de mim, madame peçonhenta!
Segue o teu caminho atormentando os mortos!
Arranca do meu peito essa dor cinzenta!
Afaste-te, sorrateira, dessas cobertas coloridas,
Pois vejo tuas intenções acobertadas
Na ironia maligna desse teu riso tísico
E no dedilhar desses teus dedos tortos.
Chagas, dores, febres, cem feridas
E esse cheiro nauseante de enxofre
Que se espalha pelo espaço físico.
Será o meu martírio, será o meu açoite
Esperando enganar meu medo hirto
Do enganador que me aguarda?
Cheiro pútrido, odor embolorado,
Fumega a carne, o fogo não se apaga,
E eu aqui fitando as fuças do Diabo.
Socorre-me, longa e ingrata madrugada,
Por que não trazes logo a luz do dia?
Por que não me adormeces mais?
Por que tenho que ficar na companhia
Da Solidão, da Depressão
E desses seres infernais?

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03 Janeiro 2008

Temporal

Dai-me essa água clara
Dos céus tombada,
Água das tardes de verão
Que me encontram agora.
Dai-me mundos,
Céus escuros e trovoadas
E essa torrente de água
Encantada, faíscas prateadas
Sob a luz da minha cidade.
Dai-me esses sons rolantes,
Pingos em castatas
Sobre telhas de argila, zinco
E amianto,
Dai-me esse pranto
Próprio dos salões da igreja,
Testemunhas do retalhar nos vitrais.
Dai-me a certeza da chuva que cai
Em tardes quentes de mormaço
Que recolhe os passarinhos,
Mas liberta as crianças
Nas poças d’águas,
Meias encharcadas,
Gargalhadas de moleques,
Ventos repentinos,
Pipas para sempre perdidas,
Infância brevemente reencontrada.

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24 Dezembro 2007

Mensagem de Natal




Fui a Belém, início do meu caminho,
Levando ouro, incenso e mirra
E admirei o sono do Menino
Que a humanidade salvaria.

Pesquei com Ele em Cafarnaum
Ao lado de Tiago, André e João
E não teria ido a lugar algum
Não fosse por Ele cumprir Sua missão.

Em Jerusalém acenei-Lhe as palmas.
Bendito fruto maduro daquele ventre
Bendito salvador de almas,
Cristo, o Ungido, que entre

Mártires os Cristãos convoca
À Oração e ao Amor do Pai,
Olhando por nós do Gólgota
Ecoando eternamente: Perdoai!

E por fim O vi ressuscitado
Com a Fé de que o pendor
Desse Jesus não mais crucificado
É ser o próprio Deus encarnado -
- De Luz e de Esplendor.

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21 Dezembro 2007

O Sentinela



De guarda na guarita
O sentinela fica,
Fuzil nas mãos, cinto e facão.
Nas longas horas da madrugada
Faz frio, faz solidão,
Mas o novato, de prontidão,
Guarda e vigia o batalhão.
Sem passatempo, cigarro barato,
Ouve tremer por entre o mato
O corriqueiro farfalhar da vegetação.
E nada há lá fora, ermo deserto verde.
Já ansioso e suando em bicas,
Não há farda nem coturno,
Fuzil, pistola ou munição
Que tirem-lhe o medo da noite escura.
E o sentinela sem saber direito
Leva a coronha de encontro ao peito
E abre fogo ao alto e ao chão.
Com a lanterna em punho e tremendo,
O corajoso soldado-escoteiro
Ainda vê o rabo de um gato preto
Seguido de um miado de reclamação.

14 Dezembro 2007

A Mulata Caribenha

Di Cavalcanti - Gafieira, 1944 Óleo s/tela, 64 x 80 cm
Coleção Marta e Rubens Schahin, São Paulo, SP



A mulata caribenha,
Do alto de seu salto alto,
Risca a cera do salão na noite da gafieira.
Bolsa em corvin, anel de “brilhante”,
Ela baila, elegante,
Faz piso do meu coração.
Ah, e aquele baton carmin?
Essa nêga faz pouco caso de mim!
Vestido colante, sutiã branco de renda,
Ela me esnoba sorridente.
E aquele decote? Seios de bronze!
Quantos olhares pousados ali?
Mas ela derruba-os todos com um requebrar dos quadris.
Eu me cato do chão e com alguma honra
Tento me recompor,
Mas a danada da mulher agora me fita oferecida,
Linda como uma flor.
Ah aquela mulata ingrata
De uma gafieira barata
Que sambou com os meus desejos.
Eu espero que no fim da noite
Ela se renda e arfe entregue aos meus beijos.
Mas enquanto o samba não pára, o bolero não cala
E os compassos não deixam de riscar o chão,
A mulata caribenha quebra os quartos
E faz de gato-sapato os sonhos da multidão.

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09 Dezembro 2007

As Garças


Garças gralham e galhofam
De outras garças desengonçadas,
E com graça fazem gracejos
Até da desgraça das outras garças.
Garças são graciosas.
Garças são engraçadas
Grassando loucas no espelho d´água,
Grafando-o com seus bicos grafiteiros.
E quando encontram um peixe graúdo...
São gratas e dão Graças.

08 Dezembro 2007

O Louco

Segue-me!,
Pois tu também és louco.
E de um tudo, sempre
Permanece um pouco,
E que loucura é maior
Ver da semente surgir
Um Jequitibá, colosso?
Segue-me, seu tolo!
Abandona as tuas certezas
Insoluvéis, os teus terrores
Injustificavéis, os teus sonhos
Irrealizáveis, insanos!
Vem ser comigo mais um mundano,
Um bêbado, um crente, um santo.
Vem ver comigo um mundo
Que ninguém mais vê.
Vem ter comigo a alegria
Incontida, a Fé concebida,
A noite e o dia sob teus pés.
Segue-me, simplesmente,
Que eu viajo pelo mundo
Sem vigiar meus passos -
Ele o faz por mim,
E esse cachorro que me segue -
Nem é meu,
Alerta, mais do que eu,
Reconhece os perigos do caminho.
Eu so faço contemplar estrelas.
Leve e eternamente solto...
Um louco!
Como são todos os vagabundos e poetas.

30 Novembro 2007

Provação



Ele é a Luz na longa noite escura,
A fiel sabedoria em tempos parvos
A repetir solene o brado: - Doai-vos!,
Pois nada mais importa ou vos cura.

Espalha as densas brumas em fervura
No terreno mítico em que os bravos
Reconheçam os espinhos e os cravos,
E renasçam da alma cinza à alvura.

Dorme ainda o Homem na mortalha
E é divino o sono que nos talha
A Fé no sangue vivo dessas chagas.

Em Teu sacrossanto coração entrego
A minha vida e morte, e não renego
A dura provação com que me afagas.

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26 Novembro 2007

O Cavalo Blanco



Cambaleando como um bêbado,
Ele desce a rua sem pretensões.
O casco solto ao som do potoque
Nos paralelepípedos, nas pedras soltas,
No ritmo cadente do seu trotar preguiçoso.
De cabeça baixa, jeito manhoso,
Vê-se que há muito abandonou a sela
Ou a cangalha de puxar carroças.
Chicoteia as moscas com o seu rabo pomposo
Descendo a rua em direção ao largo
Para comer capim verdinho no terreno abandonado.
A molecada o chama de Blanco
Como se bem marrom também não fosse.
Um Blanco bem do malhado.
E o danado parece entender
Que falam dele lá do outro lado.
Mas o Blanco é um cavalo snobe...
Se gaba de ter sido tropeiro,
Ter tido dono fazendeiro,
Ou quem sabe foi um corredor ligeiro
Montado por algum jóquei?
Potoque-Potoque-Potoque.
Mas o Blanco, como um garoto vadio,
Só quer saber de ficar no terreno baldio
E sempre se faz de desentendido;
Dá de crinas pro chamado.
E segue eu sua caminhada lenta
P o t o q u e......p o t o q u e......p o t o q u e
Certo de que ninguém o provoque,
Exceto as mesmas moscas de sempre
Que ele abana com o seu rabo castanho.

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24 Novembro 2007

Pretérito Perfeito


" O segredo, meu filho, é um só:
liberdade. Aqui não há coleiras.
A maior desgraça do mundo é a coleira.
E como há coleiras espalhadas no mundo."

(Emília, boneca de pano)

Há coisas em minha garagem
Que sempre me esperam adormecidas.
Coisas da minha vida
Que contam histórias de quem eu sou.
No velho baú de madeira
Guardo o passado por baixo
De uma camada de poeira;
Guardo um mundo particular.
E não é difícil encontrar,
Vez por outra nele debruçado,
Objetos, cores e sons familiares.
Outro dia voltei a ele
Que me recebeu com aquela saudação toda sua,
Aquele rangido, um velho conhecido,
Das dobradiças resistindo a minha visita.
E tão logo ele se abriu, meus olhos voltaram ao tempo
Em que eu não tinha barba nem aborrecimentos.
No amontoado de coisas empilhadas
Como camadas de solo que identificam as eras,
Eu fui reencontrando meu tempo desde menino.
Surgiram um peão, figurinhas da seleção,
O meu time de botão e um tabuleiro de gamão.
Depois foi a vez de reencontrar as velhas peças de xadrez,
Um brasão escocês e meu primeiro dicionário de inglês.
Um protetor (não usado) de sol, a baqueta e o tarol -
Basta um leve toque para ressuscitar 10 carnavais.
E dormindo lado a lado, três livros de Jorge Amado.
Uma lata com bolinhas de gude, um dominó, um vidro de cerol,
Uma luminária do aquário, um filtro, um galeão espanhol.
E ainda entre folhas de papel vegetal, bolas de Natal.
Dentro de uma sacola plástica reencontro Monteiro Lobato.
Caçadas de Pedrinho, Memórias da Emília, Reinações de Narizinho.
A minha garagem guarda um universo que é só meu
E o meu passado cheira a madeira e tem som de tambor.
E lá vou eu novamente...como se voltasse a ter 8 anos,
Brincando dentro de mim com o menino que ainda sou.

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23 Novembro 2007

Falta de inspiração; excesso de indignação

Ah essa tenebrosa paralisia da falta do que escrever. Quando a caneta pesa como uma âncora e você simplesmente não consegue sair do lugar. Vou para o micro e é aí que não sai nada mesmo. Acho que a TV Senado está me atrapalhando. Há alguns poeminhas não terminados esperando inspiração, mas quando volto a eles não os reconheço...alguns são deserdados sem maiores explicações. Em outros ainda tento a salvação trocando uma palavra aqui e ali, subtraindo uma frase ou acrescentando outra, mas quando é assim o resultado não é bom. Bom mesmo é quando da primeira frase a pena corre ligeira e só é preciso um retoque ou outro para vê-los terminados. Por enquanto fico nessa mar sem ondas aguardando um vento de ânimo para escrever algo novo. Isso se o Senador Mão Santa deixar.

O Senado está falando sobre o caso da adolescente paraense que ficou numa cela com mais 20 homens e teve que fazer sexo em troca de comida. Vocês já devem ter acompanhado o assunto e por isso não colocarei nenhum link aqui.

Mas aí lembrei de outro caso igualmente absurdo de uma mulher que foi estuprada e condenada a 200 chibatadas em Riad.

Lá, pelo menos, houve um julgamento baseado nas leis islâmicas do país por mais estúpido que algo desse tipo possa ser e é, mas no Pará? Terra de minha mãe e de Nossa Senhora de Nazaré? Um estado reconhecido por sua religiosidade? Há outras coisas absurdas acontecendo por lá que envolvem invasão de terra, mas diante de um absurdo desses que já descambou para ameaças ao pai da jovem e propostas para alterar o documento de nascimento da adolescente de 15 anos para que ela deixe de ser "di menor", qualquer problema é menor.

O mundo já acabou só esqueceram de nos avisar!

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19 Novembro 2007

O Despertar

E por entre tudo que procuro
Com palavras soltas, vagas,
Em minha sôfrega solidão de poeta,
Uma silhueta se destaca,
Uma voz rouca ecoa
E aos sobressaltos me desperta
Da mansidão trôpega
Dos meus sentidos hirtos
- Sem sentir -

E aquele vulto feminino,
Lindo como um disco lunar crescente,
Vem sempre acompanhado
De gargalhadas e frêmidos
Que me fazem feliz por um segundo.

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10 Novembro 2007

Adesão (Aloísio de Carvalho)

Francisco de Goya, "Tio Paquete", c. 1820, óleo sobre tela, Colecção Thyssen-Bornemisza, Madrid

Eu adiro, tu aderes, ele adere.
Todos nós aderimos prontamente,
A questão é ficar comodamente,
Sem perder os proventos que se aufere.

O que se fez, 'stá feito. Derramar
Sangue, por causa disto, é insensatez,
Desde que, pra mostrarmos altivez,
Basta a prosa da sala do jantar.

Quem tem mulher e filhos, meu amigo,
Não ser prejudicado ao mais prefere.
Vir pra rua brigar — não é consigo;

Em conflitos assim não interfere;
Por isso, nos momentos de perigo,
Eu adiro, tu aderes, ele adere.

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06 Novembro 2007

O Pássaro Cativo (Olavo Bilac)


Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Por que é que, tendo tudo, há-de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorgeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi . . .
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas . . .
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade . . .
Quero voar! voar! . . ."

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão, tremendo, lhe abriria
A porta da prisão . . .

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05 Novembro 2007

Jacaré lava o pé (Eloí Elizabet Bocheco)


O jacaré esfrega o pé
com água e sabão
Enxágua e repete
trinta vezes a operação
Se acha uma craquinha,
começa tudo outra vez.
Imagine a conta d'água
no fim do mês!

Nada abala o jacaré
quando lava o pé.

Cadeirinha de Dendê?
Seu jacaré nem vê.

Manjar de ameixa?
Jacaré olha e deixa.

Molho pardo com guisado?
Jacaré acha engraçado e
põe de lado.

Empadinhas de frango?
Jacaré diz que embrulha o
estômago.

Feijão com ovo?
Jacaré grita: de novo!

Biscoitinhos de baunilha?
O jacaré distribui pra família.

Não tem jeito!
Jacaré quando lava o pé,
só pára quando quer.
(Para o grande Lucas, filho da Letícia Coelho)

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02 Novembro 2007

VOTO DIRETO (Emílio de Meneses)

Enquanto o voto, que é função de crítica
Alta função do senso e da moral,
Da inteligência lúcida e analítica,
For exercido por qualquer boçal,

Hão de rir os patifes da política
Que ensangüentam esta capital,
Explorando a ilusão fasa e jesuítica
Do estafado sufrágio universal.

Por isso ó caro Gil Vidal, emprega
O teu talento e a tua sã razão,
A ver se se transforma esta bodega.

A não ser isso, faça-se a eleição
Para evitar depois o pega-pega,
No local apropriado: a Detenção...

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31 Outubro 2007

As Estações


Na Primavera
Tu me trouxeste
Tua fronte ornada de flores
E nos amamos nos campos
Entre margaridas e violetas.
Nós dois, dois sem vergonhas,
Nem tão jovens nem adultos,
Debaixo do calor do Sol,
Envoltos no hálito das manhãs.
Eu, como um beija-flor sedento,
Espalhei o pólen do meu amor
Ora em tua boca
Ora em teu seio,
Teus flancos,
Teus sulcos.

No Verão
Tu me trouxeste
Tua fronte brilhante e suada
E nos aventuramos por praias desertas,
Por loucas e imensas jornadas
Bebendo, cantando, dançando
E fazendo amor até romper a alvorada.
Eu, como um esquilo inquieto,
Escalei teu corpo,
Aqueci-me ao Sol do teu calor,
Deslizei dos teus pés à cabeça
E refresquei minha sede intensa
Na saliva do teu amor.

No Outono
Tu me trouxeste
Tua fronte repleta de ventos.
E nós dois, como folhas tontas,
Balançamos em rodopios cinzentos.
Ainda nos amamos como nos velhos tempos,
Mas de morno, eu senti frio
E esse meu desconforto - sentimento torto -
Anunciava o que estava por vir.
Eu, como uma formiga ligeira,
Fugi sorrateira,
Não quis ficar mais ali.

No Inverno
Tu me trouxeste
Tua fronte ferida e distante,
E já não havia amor que curasse
As dores que te fiz sentir.
Só chuvas e lágrimas,
Um frio cortante
Sem cor e sem riso.
Eu, como um rouxinol triste,
Já não te queria aqui
E depois de um canto sem viço,
Alcei vôo e parti.

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30 Outubro 2007

“Metamos o martelo nas teorias, nas poéticas e nos sistemas.
Abaixo este velho reboco que mascara a fachada da arte!”

(Victor Hugo)

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