24 dezembro 2007

Mensagem de Natal




Fui a Belém, início do meu caminho,
Levando ouro, incenso e mirra
E admirei o sono do Menino
Que a humanidade salvaria.

Pesquei com Ele em Cafarnaum
Ao lado de Tiago, André e João
E não teria ido a lugar algum
Não fosse por Ele cumprir Sua missão.

Em Jerusalém acenei-Lhe as palmas.
Bendito fruto maduro daquele ventre
Bendito salvador de almas,
Cristo, o Ungido, que entre

Mártires os Cristãos convoca
À Oração e ao Amor do Pai,
Olhando por nós do Gólgota
Ecoando eternamente: Perdoai!

E por fim O vi ressuscitado
Com a Fé de que o pendor
Desse Jesus não mais crucificado
É ser o próprio Deus encarnado -
- De Luz e de Esplendor.

21 dezembro 2007

O Sentinela



De guarda na guarita
O sentinela fica,
Fuzil nas mãos, cinto e facão.
Nas longas horas da madrugada
Faz frio, faz solidão,
Mas o novato, de prontidão,
Guarda e vigia o batalhão.
Sem passatempo, cigarro barato,
Ouve tremer por entre o mato
O corriqueiro farfalhar da vegetação.
E nada há lá fora, ermo deserto verde.
Já ansioso e suando em bicas,
Não há farda nem coturno,
Fuzil, pistola ou munição
Que tirem-lhe o medo da noite escura.
E o sentinela sem saber direito
Leva a coronha de encontro ao peito
E abre fogo ao alto e ao chão.
Com a lanterna em punho e tremendo,
O corajoso soldado-escoteiro
Ainda vê o rabo de um gato preto
Seguido de um miado de reclamação.

14 dezembro 2007

A Mulata Caribenha

Di Cavalcanti - Gafieira, 1944 Óleo s/tela, 64 x 80 cm
Coleção Marta e Rubens Schahin, São Paulo, SP



A mulata caribenha,
Do alto de seu salto alto,
Risca a cera do salão na noite da gafieira.
Bolsa em corvin, anel de “brilhante”,
Ela baila, elegante,
Faz piso do meu coração.
Ah, e aquele baton carmin?
Essa nêga faz pouco caso de mim!
Vestido colante, sutiã branco de renda,
Ela me esnoba sorridente.
E aquele decote? Seios de bronze!
Quantos olhares pousados ali?
Mas ela derruba-os todos com um requebrar dos quadris.
Eu me cato do chão e com alguma honra
Tento me recompor,
Mas a danada da mulher agora me fita oferecida,
Linda como uma flor.
Ah aquela mulata ingrata
De uma gafieira barata
Que sambou com os meus desejos.
Eu espero que no fim da noite
Ela se renda e arfe entregue aos meus beijos.
Mas enquanto o samba não pára, o bolero não cala
E os compassos não deixam de riscar o chão,
A mulata caribenha quebra os quartos
E faz de gato-sapato os sonhos da multidão.

09 dezembro 2007

As Garças


Garças gralham e galhofam
De outras garças desengonçadas,
E com graça fazem gracejos
Até da desgraça das outras garças.
Garças são graciosas.
Garças são engraçadas
Grassando loucas no espelho d´água,
Grafando-o com seus bicos grafiteiros.
E quando encontram um peixe graúdo...
São gratas e dão Graças.

08 dezembro 2007

O Louco

Segue-me!,
Pois tu também és louco.
E de um tudo, sempre
Permanece um pouco,
E que loucura é maior
Ver da semente surgir
Um Jequitibá, colosso?
Segue-me, seu tolo!
Abandona as tuas certezas
Insoluvéis, os teus terrores
Injustificavéis, os teus sonhos
Irrealizáveis, insanos!
Vem ser comigo mais um mundano,
Um bêbado, um crente, um santo.
Vem ver comigo um mundo
Que ninguém mais vê.
Vem ter comigo a alegria
Incontida, a Fé concebida,
A noite e o dia sob teus pés.
Segue-me, simplesmente,
Que eu viajo pelo mundo
Sem vigiar meus passos -
Ele o faz por mim,
E esse cachorro que me segue -
Nem é meu,
Alerta, mais do que eu,
Reconhece os perigos do caminho.
Eu so faço contemplar estrelas.
Leve e eternamente solto...
Um louco!
Como são todos os vagabundos e poetas.

30 novembro 2007

Provação



Ele é a Luz na longa noite escura,
A fiel sabedoria em tempos parvos
A repetir solene o brado: - Doai-vos!,
Pois nada mais importa ou vos cura.

Espalha as densas brumas em fervura
No terreno mítico em que os bravos
Reconheçam os espinhos e os cravos,
E renasçam da alma cinza à alvura.

Dorme ainda o Homem na mortalha
E é divino o sono que nos talha
A Fé no sangue vivo dessas chagas.

Em Teu sacrossanto coração entrego
A minha vida e morte, e não renego
A dura provação com que me afagas.

26 novembro 2007

O Cavalo Blanco



Cambaleando como um bêbado,
Ele desce a rua sem pretensões.
O casco solto ao som do potoque
Nos paralelepípedos, nas pedras soltas,
No ritmo cadente do seu trotar preguiçoso.
De cabeça baixa, jeito manhoso,
Vê-se que há muito abandonou a sela
Ou a cangalha de puxar carroças.
Chicoteia as moscas com o seu rabo pomposo
Descendo a rua em direção ao largo
Para comer capim verdinho no terreno abandonado.
A molecada o chama de Blanco
Como se bem marrom também não fosse.
Um Blanco bem do malhado.
E o danado parece entender
Que falam dele lá do outro lado.
Mas o Blanco é um cavalo snobe...
Se gaba de ter sido tropeiro,
Ter tido dono fazendeiro,
Ou quem sabe foi um corredor ligeiro
Montado por algum jóquei?
Potoque-Potoque-Potoque.
Mas o Blanco, como um garoto vadio,
Só quer saber de ficar no terreno baldio
E sempre se faz de desentendido;
Dá de crinas pro chamado.
E segue eu sua caminhada lenta
P o t o q u e......p o t o q u e......p o t o q u e
Certo de que ninguém o provoque,
Exceto as mesmas moscas de sempre
Que ele abana com o seu rabo castanho.

24 novembro 2007

Pretérito Perfeito


" O segredo, meu filho, é um só:
liberdade. Aqui não há coleiras.
A maior desgraça do mundo é a coleira.
E como há coleiras espalhadas no mundo."

(Emília, boneca de pano)

Há coisas em minha garagem
Que sempre me esperam adormecidas.
Coisas da minha vida
Que contam histórias de quem eu sou.
No velho baú de madeira
Guardo o passado por baixo
De uma camada de poeira;
Guardo um mundo particular.
E não é difícil encontrar,
Vez por outra nele debruçado,
Objetos, cores e sons familiares.
Outro dia voltei a ele
Que me recebeu com aquela saudação toda sua,
Aquele rangido, um velho conhecido,
Das dobradiças resistindo a minha visita.
E tão logo ele se abriu, meus olhos voltaram ao tempo
Em que eu não tinha barba nem aborrecimentos.
No amontoado de coisas empilhadas
Como camadas de solo que identificam as eras,
Eu fui reencontrando meu tempo desde menino.
Surgiram um peão, figurinhas da seleção,
O meu time de botão e um tabuleiro de gamão.
Depois foi a vez de reencontrar as velhas peças de xadrez,
Um brasão escocês e meu primeiro dicionário de inglês.
Um protetor (não usado) de sol, a baqueta e o tarol -
Basta um leve toque para ressuscitar 10 carnavais.
E dormindo lado a lado, três livros de Jorge Amado.
Uma lata com bolinhas de gude, um dominó, um vidro de cerol,
Uma luminária do aquário, um filtro, um galeão espanhol.
E ainda entre folhas de papel vegetal, bolas de Natal.
Dentro de uma sacola plástica reencontro Monteiro Lobato.
Caçadas de Pedrinho, Memórias da Emília, Reinações de Narizinho.
A minha garagem guarda um universo que é só meu
E o meu passado cheira a madeira e tem som de tambor.
E lá vou eu novamente...como se voltasse a ter 8 anos,
Brincando dentro de mim com o menino que ainda sou.

23 novembro 2007

Falta de inspiração; excesso de indignação

Ah essa tenebrosa paralisia da falta do que escrever. Quando a caneta pesa como uma âncora e você simplesmente não consegue sair do lugar. Vou para o micro e é aí que não sai nada mesmo. Acho que a TV Senado está me atrapalhando. Há alguns poeminhas não terminados esperando inspiração, mas quando volto a eles não os reconheço...alguns são deserdados sem maiores explicações. Em outros ainda tento a salvação trocando uma palavra aqui e ali, subtraindo uma frase ou acrescentando outra, mas quando é assim o resultado não é bom. Bom mesmo é quando da primeira frase a pena corre ligeira e só é preciso um retoque ou outro para vê-los terminados. Por enquanto fico nessa mar sem ondas aguardando um vento de ânimo para escrever algo novo. Isso se o Senador Mão Santa deixar.

O Senado está falando sobre o caso da adolescente paraense que ficou numa cela com mais 20 homens e teve que fazer sexo em troca de comida. Vocês já devem ter acompanhado o assunto e por isso não colocarei nenhum link aqui.

Mas aí lembrei de outro caso igualmente absurdo de uma mulher que foi estuprada e condenada a 200 chibatadas em Riad.

Lá, pelo menos, houve um julgamento baseado nas leis islâmicas do país por mais estúpido que algo desse tipo possa ser e é, mas no Pará? Terra de minha mãe e de Nossa Senhora de Nazaré? Um estado reconhecido por sua religiosidade? Há outras coisas absurdas acontecendo por lá que envolvem invasão de terra, mas diante de um absurdo desses que já descambou para ameaças ao pai da jovem e propostas para alterar o documento de nascimento da adolescente de 15 anos para que ela deixe de ser "di menor", qualquer problema é menor.

O mundo já acabou só esqueceram de nos avisar!

19 novembro 2007

O Despertar

E por entre tudo que procuro
Com palavras soltas, vagas,
Em minha sôfrega solidão de poeta,
Uma silhueta se destaca,
Uma voz rouca ecoa
E aos sobressaltos me desperta
Da mansidão trôpega
Dos meus sentidos hirtos
- Sem sentir -

E aquele vulto feminino,
Lindo como um disco lunar crescente,
Vem sempre acompanhado
De gargalhadas e frêmidos
Que me fazem feliz por um segundo.

10 novembro 2007

Adesão (Aloísio de Carvalho)

Francisco de Goya, "Tio Paquete", c. 1820, óleo sobre tela, Colecção Thyssen-Bornemisza, Madrid

Eu adiro, tu aderes, ele adere.
Todos nós aderimos prontamente,
A questão é ficar comodamente,
Sem perder os proventos que se aufere.

O que se fez, 'stá feito. Derramar
Sangue, por causa disto, é insensatez,
Desde que, pra mostrarmos altivez,
Basta a prosa da sala do jantar.

Quem tem mulher e filhos, meu amigo,
Não ser prejudicado ao mais prefere.
Vir pra rua brigar — não é consigo;

Em conflitos assim não interfere;
Por isso, nos momentos de perigo,
Eu adiro, tu aderes, ele adere.

06 novembro 2007

O Pássaro Cativo (Olavo Bilac)


Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Por que é que, tendo tudo, há-de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorgeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi . . .
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas . . .
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade . . .
Quero voar! voar! . . ."

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão, tremendo, lhe abriria
A porta da prisão . . .

05 novembro 2007

Jacaré lava o pé (Eloí Elizabet Bocheco)


O jacaré esfrega o pé
com água e sabão
Enxágua e repete
trinta vezes a operação
Se acha uma craquinha,
começa tudo outra vez.
Imagine a conta d'água
no fim do mês!

Nada abala o jacaré
quando lava o pé.

Cadeirinha de Dendê?
Seu jacaré nem vê.

Manjar de ameixa?
Jacaré olha e deixa.

Molho pardo com guisado?
Jacaré acha engraçado e
põe de lado.

Empadinhas de frango?
Jacaré diz que embrulha o
estômago.

Feijão com ovo?
Jacaré grita: de novo!

Biscoitinhos de baunilha?
O jacaré distribui pra família.

Não tem jeito!
Jacaré quando lava o pé,
só pára quando quer.
(Para o grande Lucas, filho da Letícia Coelho)

02 novembro 2007

VOTO DIRETO (Emílio de Meneses)

Enquanto o voto, que é função de crítica
Alta função do senso e da moral,
Da inteligência lúcida e analítica,
For exercido por qualquer boçal,

Hão de rir os patifes da política
Que ensangüentam esta capital,
Explorando a ilusão fasa e jesuítica
Do estafado sufrágio universal.

Por isso ó caro Gil Vidal, emprega
O teu talento e a tua sã razão,
A ver se se transforma esta bodega.

A não ser isso, faça-se a eleição
Para evitar depois o pega-pega,
No local apropriado: a Detenção...

31 outubro 2007

As Estações


Na Primavera
Tu me trouxeste
Tua fronte ornada de flores
E nos amamos nos campos
Entre margaridas e violetas.
Nós dois, dois sem vergonhas,
Nem tão jovens nem adultos,
Debaixo do calor do Sol,
Envoltos no hálito das manhãs.
Eu, como um beija-flor sedento,
Espalhei o pólen do meu amor
Ora em tua boca
Ora em teu seio,
Teus flancos,
Teus sulcos.

No Verão
Tu me trouxeste
Tua fronte brilhante e suada
E nos aventuramos por praias desertas,
Por loucas e imensas jornadas
Bebendo, cantando, dançando
E fazendo amor até romper a alvorada.
Eu, como um esquilo inquieto,
Escalei teu corpo,
Aqueci-me ao Sol do teu calor,
Deslizei dos teus pés à cabeça
E refresquei minha sede intensa
Na saliva do teu amor.

No Outono
Tu me trouxeste
Tua fronte repleta de ventos.
E nós dois, como folhas tontas,
Balançamos em rodopios cinzentos.
Ainda nos amamos como nos velhos tempos,
Mas de morno, eu senti frio
E esse meu desconforto - sentimento torto -
Anunciava o que estava por vir.
Eu, como uma formiga ligeira,
Fugi sorrateira,
Não quis ficar mais ali.

No Inverno
Tu me trouxeste
Tua fronte ferida e distante,
E já não havia amor que curasse
As dores que te fiz sentir.
Só chuvas e lágrimas,
Um frio cortante
Sem cor e sem riso.
Eu, como um rouxinol triste,
Já não te queria aqui
E depois de um canto sem viço,
Alcei vôo e parti.

30 outubro 2007

“Metamos o martelo nas teorias, nas poéticas e nos sistemas.
Abaixo este velho reboco que mascara a fachada da arte!”

(Victor Hugo)

27 outubro 2007

Amor Incontido



Gosto quando me vens aos olhos
E de um esplendor enfeitas o meu dia.
Gosto desse jeito meio debochado,
Desse riso torto no canto do lábio,
Dessa sobrancelha que se atreve, solitária
Num arco, num interrogatório.
Amo-te entre quatro paredes,
Entre quatro apoios
Que suportam o peso do meu corpo inteiro
Sobre o teu inteiramente nu.
Mas te amo também pelo que tens
De mais singelo...
Pelo que és; por quem me torno
Ao estar contigo.
Amo as frágeis curvas do entendimento -
Nós, eternos acostumados aos mal-entendidos -
Que tantas vezes escondem
Nossos reais motivos.
Amo o cheiro dos teus cabelos,
As rugas e rusgas que nos consomem.
Amo até as infinitas brigas
Quando depois te rendes
E te jogas no meu colo
Querendo amar e mais nada.
Amo o vinho,
Amo a madrugada.
E o silêncio estranho dos teus pensamentos insones
Querendo sondar quem eu sou.
Mas amo mesmo, antes de tudo,
A força incontida desse nosso Amor.

Nel mezzo del camin (Olavo Bilac)

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida : longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha

Hoje segues de novo...na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo

23 outubro 2007

Alma Embriagada

Na Noite alta,
Segue minha alma
Embriagada de ti.
Sem notar as pedras no caminho
Escuro, de becos e vielas,
Vai ela, tropeçando,
Bebendo a água das sarjetas,
Abrindo a testa no meio-fio
No meio de emoções confusas,
No meio termo entre te ter ou perder.
“Será Amor ou uma Grande Mentira?”
Pergunta que já fizeste e que agora me persegue.
Que suga meu sangue diluído em tristezas
E arrebenta em meus ouvidos sangrando-os
Mesmo no silêncio da Madrugada que chega
E que sempre me encontra só.
Somente embriagado de ti.

Hai Kai


As ilusões da minha infância:
Algodão-doce na pracinha
E nas nuvens do céu também

Hai Kai




Estrelas são tochas
Que do céu desabam
Em cadentes sinais

Hai Kai


Apita a “maria-fumaça”
Lançando no céu azul
Um inverno fora de época

12 outubro 2007

Poetas (Artur da Távola)

Poeta não é apenas o ser raro que faz versos. É alguém diferente da média, por isso em constante tentativa (frustrada) de se ajustar. É o vibrar de uma sensibilidade extra, que se julga privilegiada conquanto tida como defeituosa, subjetiva e inadaptada pela média das pessoas. O poeta é quem está nos lugares sem ficar, jamais, por inteiro. Acompanha os demais sem, porém, a entrega total com a qual estes se dedicam (e assim se distraem) ao trabalho, jogo ou conversa; é o mais ausente dos presentes, sem que lhe notem a evasão.

Por não estar inteiro nas atividades que encantam e ocupam os demais, o poeta sofre duplamente. Primeiro, por sua incapacidade de plena entrega aos assuntos médios. Segundo, porque vai ficando à margem dos acontecimentos, trocando-os por uma entrada em si mesmo e no universo interior dos sons e palavras.

Nos dias em que sua sensibilidade acorda aguçada, o poeta é o mais bendito dos trapaceiros. Realiza - escondendo o tédio - as tarefas corriqueiras de sua vida e trabalho, pode até assinar decisivos acordos internacionais, programar foguetes voadores, legislar ou realizar vultosas operações financeiras, sem a ninguém transmitir as emoções internas em turbilhão ou borbulha. É como se fosse um receptor de rádio AM/FM. Se está no AM ouve a FM. Se ouve a FM precisa é se concentrar no AM.

Farsante angelical, finge participar da vida dos homens quando, apesar de prestar alguma esforçada atenção ao que faz, a cada respiração ou espaço silencioso, até mesmo quando vai ao banheiro, mas sempre que se percebe sozinho - ainda que por segundos - habita-se por fantasias inenarráveis, memórias teimosas, riquíssimas sensações não verbais, gotas ou litros de depressão e um sentimento inenarrável do mundo. Não há confidente para este sentimento. Só o verso.

O poeta é diletante onde os vorazes são especialistas, é amador onde se entredevoram os profissionais. Especialista e profissional, o poeta só é de si mesmo; quando solitário, a escrever, ou quando a dois, a amar.

O poeta é o mais sublime dos desastrados. Fica aquém para ver além. Quem o compreenderá?

Do Tempo

Cronos devorando seu filhos (1821) - Goya



Tempo, senhorio malvado
Mal agraciado pelos sentimentos.
Tempo irado, detestável,
Com quem temos de conviver.
Tempo inexorável
Que engole os tristes
E mastiga os insatisfeitos.
Tempo do fim das idades,
Das tardes em anoitecer,
Das terras e peles secas,
Dos rios e olhos rasos,
Da força que se esvai
Na seiva que abandona a árvore.
Na falta de viço,
No excesso de siso -
Doença e Morte...
De plantar e colher.
O tempo nada ouve -
Não implore!
Nada vê -
Não se ajoelhe!
E nada crê.
Se espera por um tempo
Para ser feliz,
Para noivar,
Para enriquecer...
Esqueça!
Cronos castrou o próprio pai
E engoliu os próprios filhos;
O que acha que vai fazer com você?

09 outubro 2007

Pescador de Sonhos

Vai Pescador de Sonhos
Lança a tua rede pelo mar
Do sono límpido das crianças.
No mar tranqüilo
Sem vagas e sem ondas
E sem perigos se durante o sono,
Pois não há pecados no ressonar dos anjos.


Vai pescador em tua traineira,
Por entre outros que também se afastam
Do atracadouro dos acordados,
Buscar na noite alta que, derradeira,
Anuncia dos infinitos cardumes, a chegada.

E aqueles brilhos no espelho d´água?
Quem saberia dizer o que são?
Caprichos de uma formosa Lua
Ou de escamas prateadas?

A criança dorme em segurança
Em sua cama no calor do quarto,
Enquanto em seu pequeno oceano
Seu pescador já desligou o barco
E lança a rede pelo mar gelado.

A rede arrasta o fundo do oceano
Revolvendo um grosso cascalho colorido,
E nem chega a turvar a água cristalina
Na Paz do sono, no profundo suspiro.

O pescador, puxando à proa
A rede abarrotada de brilhantes
(Impossível dizer se são estrelas
Ou sardinhas loucas),
Escolhe com cuidado o sonho justo
Do augusto repouso do meu filho
E lança-o sob as ondas louras
Dos cachos do pequeno infante.

O menino agora sonha com o seu pescado
Num sorriso lindo pelo anzol dos lábios
Que só a mãe conhece no carinho.
E o pescador volta ao mesmo porto
Sem ver surgir a nova alvorada,
Aguardando o cair de outra madrugada
Para voltar ao mesmo mar dos contos
E pescar os sonhos do meu menininho.

05 outubro 2007

Meme???

Eu não fazia a mínima idéia do que seria um meme até umas poucas semanas atrás. No entanto, atendendo ao convite do Blogildo e também por ter achado interessante o tema, publico o meu aí abaixo. Esse meme divulga livros e adota o seguinte procedimento:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blog.

Bem, o livro mais próximo não tem a tal página 161, mas cito aqui por ser meu atual livro de cabeceira. É O Jovem Törless de Robert Musil. Se o nome do autor lhe parece familiar talvez você seja frequentador assíduo do blog do Reinaldo Azevedo que contém uma passagem do livro O Homem sem Qualidades logo no cabeçalho do blog. Estou terminando o livro que, diga-se de passagem, recomendo a leitura.

O segundo mais próximo e do qual eu retirei a 5ª frase completa da página 161 é um livro que está ao meu alcance esperando um tempo para ser apreciado. Tentei de uma primeira vez, mas a leitura pede um pouco mais de atenção. Não é um livro para se ler apenas por lazer, por exemplo.

"Entretanto, como um teste da fidelidade desse homem íntegro e direito, seus rebanhos foram destruídos, seus filhos mortos e, por fim, ele mesmo foi "ferido de tumores malignos desde a planta do pé até o alto da cabeça" (II:7)"

(Santo Agostinho: a vida e as idéias de um filósofo adiante de seu tempo / Gareth B. Matthews; tradução, Álvaro Cabral. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007)


Para terminar seguem os 5 blogs da minha lista que leio com frequência para continuar (ou não) a brincadeira, e, que fique bem claro, sem coerção alguma.

1-
Letícia Coelho
2-
Carolina
3-
Fora Apedeuta!
4-
Ricardo Soares
5-
Blogando Francamente

04 outubro 2007

Selena





Vou te perguntar baixinho
Por sob os vidros da janela aberta:
- Que fazes aí, fitando-me ao longe
No horizonte, a face descoberta?
Por entre nuvens, brumas azuladas
Tu te esgueiras pela madrugada
Deslizando em lânguido crescente
Sobre o piso imbuía do meu quarto.
E tua luz, pálida e ligeira,
Lança nas sombras do meu sono maculado,
Por entre venezianas pequenas,
O frescor de tua boca sedutora
No hálito da noite perfumada
Em teu baton brilhante de estrelas.
Tocas meu corpo em parte descoberto
Se insinuando sobre a borda do lençol
Em sinuosas curvas envolventes.
Retraio-me avesso à carícia inesperada,
Mas tu me persegues pela cama alva
Deslizando tua pele leve pela minha seca
Minuto a minuto no altar das horas.
E seduzido me rendo aos encantos
E caprichos daquela face avermelhada
Enquanto ela toca em minha boca,
Abrasa meus sentidos dormentes
E, cambaleante e tonta, fita-me os olhos
Deixando à mostra o seu Mar da Tranquilidade
Na silhueta cheia de beleza plena.
E eu só me lembro de perguntar já num mumúrio:
- Que fazes aqui? Qual é teu nome?
Ela sorriu e chegando em meus ouvidos
Sussurou na brisa da manhã vindoura:
- Dorme menino nos braços de Selena!

03 outubro 2007

A Soledade e a Plenitude



Não há um lugar,
Um sequer, nenhum somente.
Um lugar em que, solenemente,
Prenda-se o fio de minha vida.
Não há paisagens ou paragens de que,
Entre fotos e lembranças,
Eu guarde recordações saudosas -
Venturosas esperanças.
Não há sorrisos de que sinta falta,
Nem angústias em minha solidão.
Não lembro de beijos, cheiros, toques
Nada é, pois, prisão aos meus sentidos.
Nem há nada que me provoque
Ou fustigue a mansidão do meu castigo.
Sou um louco, um triste, um solitário,
Dirão outros por vezes ao me ver
Melancólico nesse sóbrio devaneio,
Sozinho num umbral negro e fecundo
Em busca de alguma seiva em minhas raízes.
Sou poeta, arcanjo, um santo, um vil,
Mas vivo essa loucura casta,
Ardente como uma febre juvenil,
De alma limpa e de corpo inteiro,
De peito aberto, à mostra as cicatrizes.
E sigo assim por esse e pelo outro mundo,
Como um confesso perdulário
Que tem somente a soledade e a plenitude -
- E para quem isso já basta!

02 outubro 2007

O Mundo é um Moinho (Cartola)




Ainda é cedo amor.
Mal começaste a conhecer a vida.
Já anuncias a hora da partida.
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar.
Presta anteção querida, embora eu saiba que estas
resolvida.
Em cada esquina cai um pouco a tua vida.
Em pouco tempo não serás mais o que és.
Ouça-me bem amor.
Preste atenção, o mundo é um moinho.
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões a pó.
Preste atenção querida.
Em cada amor tu herdarás só o cinismo.
Quando notares estás à beira do abismo.
Abismo que cavastes com teus pés.

29 setembro 2007

Tempo Perdido




Por onde andarão os amigos que deixei,
Os amores que vi ou que me viram partir
E dos quais nada mais encontro
Além da saudade que por breves instantes
Emerge de lembranças já cauterizadas pelo tempo?

Por onde andarão as virtudes esquecidas,
Os vícios da minha juventude
Plenamente acompanhados de dores e prazeres,
De livros e caminhos, sucessos e fracassos?

Por onde andarão as memórias de outros dias,
De outra década, de outra infância,
Não desta que vivo agora em corpo embrutecido,
Mas daquela em esqueleto de menino
Cuja semelhança se dá apenas pela dúvida,
pela indecisão e incertezas no futuro?

De que adiantam meus esforços,
Minha energia despendida em coisas sem importância
E que o tempo se encarregará de desbotar
Até as nódoas mais encardidas dos aborrecimentos
De um cotidiano em quase tudo vulgar
Querendo devorar até a Fé em meus valores?

De que adiantam os pequenos prazeres
Com os quais anestesio meus sentidos,
Minhas dores e dissabores,
Se bastam alguns segundos para a realidade se colocar
Como a única grade e cela de minha vida?

De que adiantam esses dias
Tão vagos, Vazios em tudo,
Tão mal vividos?

De que servem essas palavras,
Rabiscos surgidos numa manhã de domingo
E que não significam nada?
Nada resolvem -
- São lamúrias do meu tempo perdido.

27 setembro 2007

Ressurge sobre mim...(Mihai Eminescu)

Ressurge sobre mim, ó luz serena,
Como em meu sonho celestial de outrora;
Ó Santa Mãe, ó Virgem pura e plena,
À minha noite dá luz, Nossa Senhora!

Meu ideal não deixes ir morrendo,
Embora fundas culpas tenha sido;
O Teu olhar, de lágrimas se enchendo,
Faz descer sobre mim, compadecido.

Longe de todos, no sofrer perdido,
Em fundo abismo, eis-me com meu nada.
Não creio mais em mim, estou vencido.

Dá-me vigor e a crença renovada,
Volta do céu de estrelas estendido,
Que eu Te adore, Maria Imaculada!


Tradução: Luciano Maia

Palavras (Olavo Bilac)




As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;
Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos
De pó, que o sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos
-As palavras da fé vivem num só momento...

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O "não!" que desengana, o "nunca!" que alucina,
E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.

26 setembro 2007

Rosa (Pixinguinha)


Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza
Perdão, se ouço confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer

Terra Oca

- A Terra é oca! A Terra é oca!
Bradou como um novo Eureka Universal.
De longe o velho pescador sisudo
Sem da rede remendada se afastar,
Emendou:
- E a estupidez humana
É vasta e profunda
Como o
Mar.

25 setembro 2007

HaiKai


O vento corta o silêncio.
Na noite morna
Bambuzais são flautas afinadas.

24 setembro 2007


Sentado num Café na antiga rua do centro da cidade,
Mesinha à beira da calçada sob um ombrelone,
Eu lia um velho livro sem capa de verso e prosa
Distraído do mundo sob um leve raio de Sol.
Só percebia a vida pela fumaça da xícara
E pelo vento e o perfume de quem passava ao longe
Em frente a velha casa de fachada rosa.

Eu, eterno distraído de costas para o fluxo
Que pela esquina corria e contornava-me como um rio,
Mal notava o ir e vir dos que se apressavam para o trabalho
Perdendo o tempo e aquela manhã já morna.
Soprou um vento espalhando as migalhas do meu pão.
A bela garçonete limpou a minha mesa com um sorriso -
Um riso hirto como o de uma carta do baralho.

O café esfriava, o pão adormecia e eu, sonolento,
Vasculhava as pessoas e carros pela rua.
Olhava o relógio - ainda tinha tempo até às 8
Enquanto ainda observava a sacada do casarão.
Tirando os pombos tudo ainda era bonito.
Faltava um azulejo ou outro na parede nua
Que meu olhar perscrutador percorria afoito...

Parado ali, lancei o mesmo olhar compadecido,
Vendo o passado transfigurado e triste
De cicatrizes, marcas das épocas vividas,
E outras nem tão velhas, mas ainda mais dolosas.
A casa respirava talvez seus últimos suspiros
Pelos poros abertos de um tijolo qu´inda resiste
E de azulejos de opacas e cinzentas feridas.

Conforme o sol avançava pelo céu anil
Fui descobrindo pela fresta das janelas brancas
Que a luz invadia morna e difusa o interior da casa.
Na cumeeira faltavam telhas, faltava o forro,
E de um vitral meio translúcido por um dos tempos
Eu vi a sala ornada por velhas e douradas sancas
Que trazia ao centro uma aquarela com duas asas.

Conta a história recente de quem a conhecia
Que o dono, antigo barão do café do interior do estado,
Famoso pelos bens e mal trato com os escravos
E pelas festas com toda a nobreza reunida
No largo e brilhante salão em paquet paulista,
Certa noite de outro século dormira um sono iluminado
E sonhou ver nas palmas duas marcas de cravos.

Acordando em sobressalto pela dor pungente,
Pareceu-lhe ver a figura de um anjo ao pé da cama
Que aos poucos se dissolveu na noite escura
Perdido entre as paredes do suntuoso quarto.
O barão, impressionado até o fim de sua vida,
Contou de uma bela forma a noite do seu drama
No teto do salão com um par de asas na pintura.

E quem olhava aquelas imensas asas alvas
Bem do centro do salão sobre uma rosa
Via refletido num pequeno espelho prateado
A própria face assustada e fria entre as asas.
Quisera o barão com simbolismos desenhados
Mostrar de todos a outra face branda e piedosa
Entre as asas magnificas do anjo ali fincado.

E hoje se não fosse por faltar o espelho prateado,
Aquelas asas tênues no céu do teto se perdendo
Fariam ao visitante de outro século, comovido
Perceber a grandeza da pintura mística
No retrato da visão do antigo dono.
Os que olharam sentiram um fogo lhes ardendo
E confessaram verem em si mesmos um anjo decaído.

10 setembro 2007

Do Toque



Amor,
Não há verdade maior
Do que aquela que ouviste
Eu sussurrar em teu ouvido
Nas noites quentes e distraídas
De um longínquo verão.
Nada que tenha escapado,
Que tenha sido esquecido
Na distância dos lábios
Selados de palavras tolas
Por beijos inquietos, infinitos.
Nada que tenha fugido ao toque
No aceno de mãos
Tão plenamente espalmadas
Com as quais tateamos
Nossos sonhos,
Nossos corpos
E um punhado de estrelas.

04 setembro 2007

Os Roedores


- Os ratos tomarão conta do navio!
Invadiram pelas cordas e correntes,
Sorrateiros durante as madrugadas.
Não vigiamos!
Bebíamos em todas aquelas noites.
Eles agora comandam a cozinha.
Em breve controlarão até a nossa água.
Ratos, meu senhor.
Do tamanho e peso de gatos,
Porém mais espertos, sagazes.
Chegaram nessas madrugadas
Em que sempre festejávamos nossas vitórias.
Hoje estão na cozinha e na despensa,
Mas em breve tomarão toda a nave.
Não aguardam a hora.
Dizem até querer o leme e a sua cabine, senhor.
Na biblioteca já destruíram seus livros.
Prometem escrever outra história a partir de agora.

- Um navio comandado por um roedor?
Que despropósito! O que falta mais?
Combatamos esses loucos animais.
Já lutamos mil guerras.
Já vencemos inimigos mais sanguinários.
No que eles serão mais capazes do que outros vencidos?
O que devemos temer?
Ratos, apenas ratos.
E como ratos hão de morrer.

- Capitão, é certa a sua decisão,
Mas essas criaturas vieram para ficar.
Dizem ser a nova tripulação,
Uma nova ordem, sei lá.
Alguns homens já se atiraram ao mar.
Disseram que já sondavam nosso barco
Quando acostado e quando estuado.
Ficaram lá, margeados, marginalizados,
Esperando ancorados
As brechas por onde entrar.
Nas noites em que baixamos a guarda
Não vimos nenhum.
No avançar das madrugadas
Regadas a festas e rum,
Eles espreitavam entre nós,
Soprando pelo barlavento
Suas mentiras em guinchos ensurdecedores
Que ainda assim não demos ouvidos.
Não demos atenção ao bando pestilento.
São os novos piratas. Hordas alopradas.
Estiveram sempre lá.
De migalha em migalha nos assaltavam,
Mas agora o fazem às toneladas.

- Mas são apenas ratos. Não entendo!
Seres grotescos, animais nocivos,
Mas podem ser facilmente esmagados,
Escaldados ou mesmo queimados vivos.
Não precisamos de canhão,
De florete ou fuzil.
Dai-lhes veneno
Que se vão do navio.

- O capitão não vê?
Os ratos, senhor,
Fazendo alarido na cozinha,
Também já tomaram o cais.
Estão aos milhares, milhões,

Promovendo desordem e bandalheira.
Por mais que não possamos crer,
Infestaram o porto, a cidade,
Rasgaram a nossa bandeira

E de um vermelho sangue
Tingiram os valores de nossos pais.

- Que calamidade!
Quais são nossas chances?
Resta-nos levantar âncora e partir
Ou ficar e lutar por dias, semanas ou meses a fio?

- Não, senhor, não devemos desistir,
Mas os que nos cercam derrubando panelas,
Fazendo algazarra com nossas reservas.
Os que nos espreitam, olhos famintos,
Roubando o que levamos anos para construir,
Agora já limpam os bigodes fartos de tudo

E nos atiram num profundo e macabro vazio,
Roendo também a nossa Liberdade.
Não temos escolha...
Os ratos já tomaram o Brasil.

03 setembro 2007

Este lado da Verdade (Dylan Thomas)

Para Llewlyn

Este lado da verdade,
Meu filho, tu não podes ver,
Rei de teus olhos azuis
No país que cega a tua juventude,
Que está todo por fazer,
Sob os céus indiferentes
Da culpa e da inocência
Antes que tentes um único gesto
Com a cabeça e o coração,
Tudo estará reunido e disperso
Nas trevas tortuosas
Como o pó dos mortos.

O bom e o mau, duas maneiras
De caminhar em tua morte
Entre as triturantes ondas do mar,
Rei de teu coração nos dias cegos,
Se dissipam com a respiração,

Vão chorando através de ti e de mim.

Tradução: Ivan Junqueira

02 setembro 2007

O Cemitério Marinho (Paul Valéry)

Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge oTempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.

A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.

Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.

Sabes tu, prisioneiro das folhagens,
Golfo roedor de tão finos gradis,
Claros segredos para os olhos cegos
Que corpo a um fim ocioso me compele,
Que fronte o atrai a tal rincão de ossadas?
Um lampejo aqui pensa em meus ausentes.

Sacro, encerrando um fogo sem matéria,
Pouca de terra oferecida à luz,
Prezo este sítio, que dominam tochas,
Composto de ouro, pedras e ciprestes,
Onde mármores tremem sobre sombras.
O mar lá dorme, fiel, sobre meus túmulos.

Cadela esplêndida, afugenta o idólatra!
Quando, sorriso de pastor, sozinho
Apascento carneiros misteriosos
- Branco rebanho de tranqüilos túmulos -
Afasta dele as pombas temerosas
Os sonhos vãos, os anjos indiscretos.

Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.

Os mortos estão bem, sob esta terra
Que os aquece e resseca seu mistério.
O meio-dia no alto, o meio-dia
Quedo se pensa em si e a si convém.
Fronte completa e límpido diadema,
Eu sou em ti recôndita mudança!

Eu, somente eu, contenho os teus temores!
Meus pesares, limitações e dúvidas
São a falha de teu grande diamante...
Em sua noite grávida de mármores,
Entanto, um povo errante entre as raízes
Tomou já teu partido, lentamente.

Dissolveu-se na mais espessa ausência;
Bebeu vermelho barro a branca espécie;
Passou às flores o dom de viver.
Dos mortos, onde as frases familiares,
A arte pessoal, as almas singulares?
Tece a larva onde lágrimas nasciam.

O riso agudo de afagadas jovens,
Olhos e dentes, pálpebras molhadas,
O seio ousado desafiando o fogo,
Sangue a brilhar nos lábios que se rendem,
Últímos dons e dedos que os defendem
- Tudo se enterra e ao jogo outra vez volta.

E tu, grande alma, acaso um sonho esperas,
Despido, então, das cores de mentira
Que a estes meus olhos a onda e o ouro mostram?
Cantarás, quando fores vaporosa?
Tudo flui! Porosa é minha presença;
A sagrada impaciência também morre.

Magra imortalidade negra e de ouro,
Consoladora com horror laureada,
Que seio maternal fazes da morte
- O belo engano, a astúcia mais piedosa!
Quem não conhece e quem não repudia
Esse crânio vazio, o riso eterno?

Pais profundos, cabeças desertadas,
Que sob o peso de tantas pàzadas
Terra sois, confundindo os nossos passos!
O verdadeiro verme, irrefutável,
Não para vós existe, sob a lousa
Ele de vida vive e não me deixa.

Amor, talvez? Talvez ódio a mim mesmo?
Seu dente oculto está de mim tão próximo
Que qualquer nome, acaso, lhe convém.
Que importa!... Ele vê, quer, sonha, ele toca:
Minha carne lhe agrada, e até no leito
Vivo de pertencer a este vivente.

Zenão, cruel! Zenão, Zenão de Eléia!
Feriste-me com tua flecha alada,
Que vibra, voa e que não voa nunca.
O som engendra-me e a flecha me mata!
O sol... Ah, que sombra de tartaruga
Para a alma, Aquiles quedo e tão ligeiro!

Não, não!... De pé! No instante sucessivo!
Rompe meu corpo, a forma pensativa!
Bebe meu seio, o vento que renasce!
Esta frescura a exalar-se do mar
A alma devolve-me... Ó, poder salgado!
Corramos à onda para reviver!

Sim, grande mar dotado de delírios,
Pele mosqueada, clâmide furada
Por incontáveis ídolos do sol,
Hidra absoluta, ébria de carne azul,
Que te mordes a fulgurante cauda
Num tumulto ao silêncio parecido,

Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas!


Trad. de Darcy Damasceno e Roberto AIvim Confia

01 setembro 2007

Sensação (Arthur Rimbaud )


Pelas noites azuis de verão, irei em atalhos sob a lua,
Picotado pelos trigos, pisar a grama pequena:
Sonhador, sentirei nos pés o frescor que acena.
Deixarei o vento banhar minha cabeça nua.

Não falarei, não pensarei em nada sequer:
Mas me subirá na alma o amor soberano,
E irei longe, bem longe, feito um cigano,
Pela Natureza — feliz como se estivesse com uma mulher.

Março 1870.
Imagem: CAMPOS DE TRIGO COM CORVOS - 1890 MUSEU NACIONAL VINCENT VAN GOGH, AMSTERDAM

26 agosto 2007

De Alma em Alma (Cruz e Souza)


Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário
As almas, em silêncio, contemplando.

Não sei que de harpas há em ti vibrando,
que sons de peregrino estradivário
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.

Mas sei que de alma em alma andas perdido
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha.

Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte ressuscita e brilha!

Canção (Cecília Meireles)

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...

Somos todos poetas (Murilo Mendes)

Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.

A Morte não existe (John McCreery )

Não existe a morte. Os astros se vão
Para surgirem em outras terras e
Sempre brilhando no diadema celeste,
Espalham seu fulgor incessantemente.

Não existe a morte. O chão que pisamos
Converter-se-á pelas chuvas estivais,
Em grãos dourados; em doces frutos;
Em flores que luzem suas policromias.

Não existe a morte. Embora lamentemos
Quando o corpo denso de seres queridos
Que aprendemos a amar, sejam levados
De nossos amorosos braços, agora vazios.

Eles não morreram. Apenas partiram,
Rompendo a névoa que nos cega aqui;
Para nova vida, mais ampla, mais livre,
De esferas serenas, de brilhante Luz.

Embora invisíveis aos nossos olhos;
Continuam nos amando. Estão connosco.
Nunca esquecem os seres queridos,
Que pelo mundo, atrás deixaram.

Não existe a morte. As folhas do bosque
Convertem em vida o ar invisível;
As rochas se desintegram para alimentar
O faminto musgo que nelas se agarrou.

Não existe a morte. As folhas caem;
As flores murcham e desaparecem;
Esperam apenas durante as horas hibernais
O retorno do suave alento da Primavera.

Embora com o coração despedaçado,
Coberto com as negras vestes de luto,
Levemos seus restos à obscura morada
E digamos que eles morreram.

Apenas despiram suas vestes de barro,
Para revestirem com trajes cintilantes.
Não foram para longe, não nos deixaram;
Não se perderam; nem mesmo partiram.

Por vezes sentimos na fronte febril,
Suave carícia ou balsâmico alento;
É que nosso espírito ainda os vê,
E nosso coração se conforta e tranquiliza.

Sempre juntos a nós, embora invisíveis,
Continuam esses queridos espíritos imortais;
Pois, em todo o infinito Universo de Deus,
Só existe Vida - NÃO EXISTE MORTE.


John Luckey McCreery (1835 - 1906)

25 agosto 2007

Os Homens Ocos (T.S. Eliot)


"A penny for the Old Guy"

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(tradução: Ivan Junqueira)

Tabacaria (Álvaro de Campos)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
.
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
.
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
.
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

20 agosto 2007

O Guardião

Abre-te Sésamo lacrado!
Segredo Hermético guardado
De um nefasto andarilho errante.
Guarda-te à porta dos mistérios.
Porta-te, Guardião Etéreo,
Impávido e aguarda
Chegarem as hordas do Inferno.
Segue o imaculado infante
Tombando as bestas sanguinárias,
Esperando que as cavalarias templárias
Lhe socorram no derradeiro instante.
Mesmo em meio ao fogo lancinante,
Faz-te em espada e lança - te,
E sendo um raio fulminante, combate
Manchando de vermelho sangue
As planícies sombrias de Hécate.
Deixa passar a pomba e o cordeiro.
Esmaga sem dó o corvo e o morcego.
Vai e retorna ao Olimpo do qual tu mesmo é Zeus.
Pois se o Apocalipse te chegasse hoje,
Em tua bela e já franzida fronte
Não encontraria nenhuma falsa marca de Deus.

19 agosto 2007

Ralph Waldo Emerson

"Ser você mesmo em um mundo que está constantemente
tentando fazer de você outra coisa é a maior realização."

Cidade Mulher (Noel Rosa)

Domingo nublado em São Paulo; bateu uma saudade do meu Rio de Janeiro. Vou de Noel, de Vila Isabel, pra recordar um pouco a minha cidade.

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Cidade de amor e ventura

Que tem mais doçura

Que uma ilusão

Cidade mais bela que o sorriso

Maior que o paraíso

Melhor que a tentação

Cidade que ninguém resiste

Na beleza triste

De um samba-canção

Cidade de flores sem abrolhos

Que encantando nossos olhos

Prende o nosso coração



Cidade notável

Inimitável

Maior e mais bela que outra qualquer

Cidade sensível

Irresistível

Cidade do amor, cidade mulher



Cidade de sonho e grandeza

Que guarda riqueza

Na terra e no mar

Cidade do céu sempre azulado

Teu sol é namorado

Das noites de luar

Cidade padrão de beleza

Foi a natureza

Quem te protegeu

Cidade de amores sem pecado

Foi juntinho ao Corcovado

Que Jesus Cristo nasceu.

18 agosto 2007

Honoré de Balzac


Dentre todas as criaturas, a mulher é a mais perfeita:
é uma criação transitória entre o homem e o anjo
18 de agosto: 157 anos do falecimento do escritor francês

Congresso Internacional do Medo (Carlos Drummond de Andrade)

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medoe sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Um Beijo (Olavo Bilac)

Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior...Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
Batismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,

Na perpétua saudade de um minuto...

16 agosto 2007

Corredeiras

Mira essas colinas verdes
De onde o vento espalha
Um movimento ondulante pelos ares.
Mira esse riacho doce
E a correnteza a murmurar
Doces canções de amores
Que até hoje escuto no cair da noite.
Daquelas noites que perdemos tempo -
Daquele tempo que nos perdemos em nós
Tentanto nos encontrar depois de tantos desencontros.

Na beira do doce riacho
Eu cantei teu nome, colhi estrelas e cultivei tempestades.
E tu me destes a melodia de teu coração
Enquanto eu adormecia ainda arfando
Sobre o teu seio nu.
Naquelas noites quase insones
O mundo era só nosso - nosso pequeno mundo
E o tempo escorria ligeiro
Como a água entre as pedras do rio.
Como eu que também percorria afoito
As pedras lisas de tuas pernas e coxas.

Mira esse último luar que ja não encontra nós dois
Ali, no leito, no rio...
Recorda também essa saudade
Que me desperta e remete ao passado.
Que me ensinou a amar todas as corredeiras e chuvas.

13 agosto 2007

4o. Motivo da rosa (Cecília Meireles)

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

07 agosto 2007

Os Sapos (Manuel Bandeira)

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!

O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . ."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei" - "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!"

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- "A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo."

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio.

O Navio Negreiro (Castro Alves)


...Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
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Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
...

Asa de Corvo (Augusto dos Anjos)


Santo Expedito era comandante-chefe da XII Legião Romana, aquartelada na cidade de Melitene, hoje Armênia, no final do século III. Antes de sua conversão ao Cristianismo, tinha uma vida devassa. Quando Santo Expedito estava para se converter, apareceu-lhe um espírito do mal, na forma de um corvo, grasnando CRAS - que em latim significa AMANHÃ - mas esse grande santo pisoteou o corvo, bradando HODIE, que significa HOJE, confirmando sua urgente conversão.Cristão convertido, assim como toda a sua tropa, Expedito foi vítima da ira do imperador Diocleciano. A imporância de seu posto fazia dele um alvo especial do ódio do imperador. Foi flagelado até sangrar e depois decapitado pela espada.

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Asa de corvos carniceiros, asa,
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre ás vezes o espaço e cobre ás vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os revezes,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto á brasa,
Como os Goucourts, como os irmãos siamezes!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o panno preto
Que as famílias de lucto martyriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte - a costureira funerária-
Cose para o homem a última camisa!


05 agosto 2007


"Quem receber a verdade com resignação nunca terá que sacar a sua espada afoitamente."
(Morihei Ueshiba)

21 julho 2007

E.E. Commings

Eu gosto do seu corpo
Eu gosto de que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quano lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar

Vinicius de Moraes

Amo-te
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude .

10 julho 2007

Átomo

Eu já fui cometa, já fui montanta e já fui árvore.
Hoje sou poeta.
E em cada canto do Universo
Um átomo meu invade, reage e completa
A destemida saga de ser, eu mesmo, um Deus.

Da Praia


Eu já nem me lembro
Daquela areia branca, aquele mar,
Aquela espuma ondulante
Nas rochas a se precipitar.
E das pedras portuguesas?
Na branca e na preta
Que quando criança eu adorava surfar,
Braços abertos, equilibrista do calçadão
Fazendo graça nas manhãs de domingo.
Do som dos molinetes na ponta do Leme
Pouco chega aos meus ouvidos
Desacostumados a esses sons despreocupados.
E das cores das cangas das morenas
Pouco se lembram meus olhos cansados,
Ardendo poluídos por outros ares e olhares.
E aquele cheiro de protetor solar...
De queijo coalho...
Ou simplesmente da brisa fresca do mar.
Das tardes de diferentes matizes
No céu a derramar,
V a g a r o s a m e n t e,
Um anoitecer estrelado sobre a minha cidade.
Não há aplausos que bastem
Para aquele pôr-do-sol.
Não há lembrança que console
A minha eterna saudade.

Sossega, coração! Não desesperes! (Fernando Pessoa)

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.


Fernando Pessoa, 2-8-1933.

05 julho 2007

A dama na janela

Mas, ah! nenhuma teve o teu encanto,
Nem teve olhar como esse olhar, tão cheio
De luz tão viva, que abrasasse tanto!
(Olavo Bilac)

Lá estava ela,
Flor de jasmim incandescente
Repousada inocente
Na sacada da janela.
Nem poderia imaginar
Que andando na calçada em frente
Um jovem andarilho tinha em mente
Mil pecados sem ousar contar.
Aceno meio displicente.
Ela responde com um sorriso no olhar.
A lua crescente e quase cheia
Lhe aumentava o brilho dos cabelos
Negros, novelos profundamente abissais.
E o seu perfume tinha o hálito
De um campo de rosas vermelhas
Na aurora das manhãs outonais.
As finas mãos e aqueles leves cotovelos
Tão alvos, tão belos, tão meus em pensamento,
Tocavam o azul da moldura da aquarela
De onde o seu sorriso,
Colar de Pérolas,
Iluminado, iluminava à noite
As ruas de pedra do velho casarão em Tiradentes.
E na janela, aberta pro infinito,
Nem mesmo a Via Láctea cintilaria como ela.
Tal qual uma chama num quadro fluorescente
Paira, linda, a minha donzela.
Ó bailarina dos meus sonhos!
Ó Deus dos mundos!
Quem fez esta mulher tão bela?

03 julho 2007

Rouxinol

Hail to thee, blithe spirit! Bird thou never wert!

Shelley

Nunca fui de entender de sentimento.
Mas nesse canto, não mais que emudecia.
Calaram-se também o corvo, a cotovia,
Pois rouxinol vai murmurar seu sofrimento.

O pássaro tristonho pendurado ao vento
Voava pro horizonte enquanto anoitecia
Cantando ao longe um canto que sumia,
Que do meu quarto acompanhava atento.

Ele, ancorado na descampada ermida,
Do telhado lembrava milagrosamente à vida
Que na tristeza jamais estamos sós.

E o rouxinol no mavioso canto
Não saberia que seu sofrido pranto
É só o eco da minha própria voz.


(julho/07)