05 agosto 2008

Amor Imperativo


Sei que no início era o Verbo
Num crescente ritmo constante,
Antes do futuro e desse instante,
Nascendo do passado que herdo.

Sabes também que não te espero
Cruzar por um caminho mais distante,
Enfrentar o frio, fio de prata cortante,
E seguir o rumo que eu mais quero.

E esse nosso amar-amei-amamos,
Verbo que tantas vezes conjugamos
No presente e pretérito do indicativo,

Guardado no peito, e que desta feita,
Sempre te encontrou mais-que-perfeita,
Continua me achando imperativo.

04 agosto 2008

Caninos



Em louca hora eis que se atravessa
Em seu caminho tão perigosa fera,
A farejar o mundo, rasteiro e em pressa,
Riscando o chão com o elo que a acolera.

E vai bufando, a baba nos caninos,
Sem sentimento ou pena ou dor.
Se põe a brincar entre os meninos;
Fera obtusa que, em seu fétido odor,

Escarnece desse sangue de inocentes
E mastiga os valores mais humanos
Em sua sede insana e desmedida.

Hão de curar-se as chagas e as cem feridas.
Das dores todas, flechas transparentes
Transpassarão a alma dos mundanos.

02 agosto 2008

Soneto dos vaga-lumes (Waldemar Lopes)



Era o impúbere céu, era a anteaurora
translúcida. Na meia-luz contida
de súbito se abria, aura sonora,
a flor do canto, logo emurchecida.

Mas no chão da memória surge agora,
de matérias do tempo concebida,
visão morta da noite feita aurora
(e uma vida fundida noutra vida).

Chispas de azul verdefosforescendo
trazem à solidão da terra acesa
o secreto esplendor da alma apagada.

Ritmo de lume e cor, nascem morrendo,
enquanto cresce –tensa de beleza,
madura de silêncio – a madrugada.

31 julho 2008

Muros (Konstantinos Kaváfis)


Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.

E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio me depreda.

E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.

Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.

(tradução de José Paulo Paes)

Debaixo do Tamarindo (Augusto dos Anjos)




No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos.

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

25 julho 2008

Poesia V


"Ninguém ignora que a poesia é uma solidão espantosa,
uma maldição de nascença, uma doença da alma."
Jean Cocteau

Poesia IV

"A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade."

Camilo Castelo Branco

21 julho 2008

Fotografias


Nós pairamos, em fotografias,
Como se suspensos e eternamente congelados.
Pairam impressas, no papel retangular,
Memórias e lembranças de um passado.
Fotografias vivas em adornos crespos,
Em preto e branco, em sépia, em cinza.
Nos álbuns de família, registradas.
Festas, casamentos, nascimentos...
Viagens, almoços e aniversários.
Mas faltam folhas de papel vegetal
Entre uma foto e outra.
Hoje, tudo é digital.
Ninguém mais abre as portas
Da velha estante de madeira nobre,
E dentro de enormes caixas,
Revira e volta a reviver a vida
Em folhas soltas de desbotado brilho.
Ninguém mergulha mais
Naquelas caixas abissais
Que na minha infância,
Nas minhas investigações de criança,
Lançavam luzes sobre os meus avós.
E elas seguem em tenebrosa sombra,
Lutando contra o esquecimento e a umidade,
Aguardando que um dia, quem sabe?,
Algum bisneto as venham resgatar

Poesia III


"Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo."

John Keats

Poesia II


"A poesia é tudo o que há de íntimo em tudo."
Victor Hugo

Imagem: Eros e Psiquê - Gérard, 1798 Musée du Louvre, Paris

Poesia I


"Sempre se admitiu que a poesia participava do divino porque eleva e arma o espírito submetendo a aparência das coisas aos desejos da alma, enquanto a razão constrange e submete o espírito à natureza das coisas."

Fonte: Francis Bacon em "O Progresso do Conhecimento"

10 julho 2008

Minhas Faltas

Que falta eu sinto de tudo...
De tudo que não vivi.
Saudades de um tempo perdido;
Que falta tu fazes em mim
Que falta no mundo de hoje?
Num tempo em que ninguém faz falta,
Eu canto, sentido, a minha;
Que falta tu fazes em mim.
Não vou abraçar madrugadas
Nem transbordar o teu vinho.
Não vou apontar estrelas
Nem renovar meus carinhos.
Num canto a minha alma vagueia,
E ninguém mais pode sentir,
Na solidão sonora e silente,
Que falta tu fazes em mim.

11 janeiro 2008

Carambola

Lanço-te meu beijo
Como um pássaro tonto
Nos torvelinhos de uma tempestade.
Lanço-me em teus braços
Em espirais de desejo,
Tonto de saudade.

Ergo-me sem esperanças
Na vívida hora dos sonhos
A espreitar tua vontade.
Doce, lânguida e fremente
Senhorita dos moinhos,
Vento da minha liberdade.

Menina esperta e formosa,
Beleza de ave, morena.
Negros cachos de eternidade.
E eu, cavaleiro andante,
Sofro atrás desses passos
Por toda essa mocidade.

Sigo o sabor carambola
Na boca que arde, e demora
Na longa hora que invade
O meu sonho de infante.
Da menina que segue faceira
Fugindo de mim só por maldade.

07 janeiro 2008

A Visita



Fechou-me a solidão como mortalha,
Fazendo paralíticos os meus sentidos.
Num negro e vasto limbo de amarras
Abateram-se sobre esses ombros lisos,
Fardos, pesos soltos a reabrir as chagas.
A Depressão, silenciosa Dama dessas horas,
Minha visita no corredor das madrugadas,
Que se por acaso me encontra entorpecido,
No leito sujo, quase adormecido
Por sobre pilhas de livros, cantando
Uma história que não conto agora,
É porque é uma velha conhecida
A visitar o paciente desse quarto.
Mas não traz sopas nem ungüentos
Só a Solidão em pratos rasos.
E como lhes transbordam os lamentos
Ao sabor acre daquela tirana senhora
Espreitando-me ao pé da cama
E aguardando a minha morte
Que não chega, mas também não tarda.

Afasta-te de mim, madame peçonhenta!
Segue o teu caminho atormentando os mortos!
Arranca do meu peito essa dor cinzenta!
Afaste-te, sorrateira, dessas cobertas coloridas,
Pois vejo tuas intenções acobertadas
Na ironia maligna desse teu riso tísico
E no dedilhar desses teus dedos tortos.
Chagas, dores, febres, cem feridas
E esse cheiro nauseante de enxofre
Que se espalha pelo espaço físico.
Será o meu martírio, será o meu açoite
Esperando enganar meu medo hirto
Do enganador que me aguarda?
Cheiro pútrido, odor embolorado,
Fumega a carne, o fogo não se apaga,
E eu aqui fitando as fuças do Diabo.
Socorre-me, longa e ingrata madrugada,
Por que não trazes logo a luz do dia?
Por que não me adormeces mais?
Por que tenho que ficar na companhia
Da Solidão, da Depressão
E desses seres infernais?

03 janeiro 2008

Temporal

Dai-me essa água clara
Dos céus tombada,
Água das tardes de verão
Que me encontram agora.
Dai-me mundos,
Céus escuros e trovoadas
E essa torrente de água
Encantada, faíscas prateadas
Sob a luz da minha cidade.
Dai-me esses sons rolantes,
Pingos em castatas
Sobre telhas de argila, zinco
E amianto,
Dai-me esse pranto
Próprio dos salões da igreja,
Testemunhas do retalhar nos vitrais.
Dai-me a certeza da chuva que cai
Em tardes quentes de mormaço
Que recolhe os passarinhos,
Mas liberta as crianças
Nas poças d’águas,
Meias encharcadas,
Gargalhadas de moleques,
Ventos repentinos,
Pipas para sempre perdidas,
Infância brevemente reencontrada.

24 dezembro 2007

Mensagem de Natal




Fui a Belém, início do meu caminho,
Levando ouro, incenso e mirra
E admirei o sono do Menino
Que a humanidade salvaria.

Pesquei com Ele em Cafarnaum
Ao lado de Tiago, André e João
E não teria ido a lugar algum
Não fosse por Ele cumprir Sua missão.

Em Jerusalém acenei-Lhe as palmas.
Bendito fruto maduro daquele ventre
Bendito salvador de almas,
Cristo, o Ungido, que entre

Mártires os Cristãos convoca
À Oração e ao Amor do Pai,
Olhando por nós do Gólgota
Ecoando eternamente: Perdoai!

E por fim O vi ressuscitado
Com a Fé de que o pendor
Desse Jesus não mais crucificado
É ser o próprio Deus encarnado -
- De Luz e de Esplendor.

21 dezembro 2007

O Sentinela



De guarda na guarita
O sentinela fica,
Fuzil nas mãos, cinto e facão.
Nas longas horas da madrugada
Faz frio, faz solidão,
Mas o novato, de prontidão,
Guarda e vigia o batalhão.
Sem passatempo, cigarro barato,
Ouve tremer por entre o mato
O corriqueiro farfalhar da vegetação.
E nada há lá fora, ermo deserto verde.
Já ansioso e suando em bicas,
Não há farda nem coturno,
Fuzil, pistola ou munição
Que tirem-lhe o medo da noite escura.
E o sentinela sem saber direito
Leva a coronha de encontro ao peito
E abre fogo ao alto e ao chão.
Com a lanterna em punho e tremendo,
O corajoso soldado-escoteiro
Ainda vê o rabo de um gato preto
Seguido de um miado de reclamação.

14 dezembro 2007

A Mulata Caribenha

Di Cavalcanti - Gafieira, 1944 Óleo s/tela, 64 x 80 cm
Coleção Marta e Rubens Schahin, São Paulo, SP



A mulata caribenha,
Do alto de seu salto alto,
Risca a cera do salão na noite da gafieira.
Bolsa em corvin, anel de “brilhante”,
Ela baila, elegante,
Faz piso do meu coração.
Ah, e aquele baton carmin?
Essa nêga faz pouco caso de mim!
Vestido colante, sutiã branco de renda,
Ela me esnoba sorridente.
E aquele decote? Seios de bronze!
Quantos olhares pousados ali?
Mas ela derruba-os todos com um requebrar dos quadris.
Eu me cato do chão e com alguma honra
Tento me recompor,
Mas a danada da mulher agora me fita oferecida,
Linda como uma flor.
Ah aquela mulata ingrata
De uma gafieira barata
Que sambou com os meus desejos.
Eu espero que no fim da noite
Ela se renda e arfe entregue aos meus beijos.
Mas enquanto o samba não pára, o bolero não cala
E os compassos não deixam de riscar o chão,
A mulata caribenha quebra os quartos
E faz de gato-sapato os sonhos da multidão.

09 dezembro 2007

As Garças


Garças gralham e galhofam
De outras garças desengonçadas,
E com graça fazem gracejos
Até da desgraça das outras garças.
Garças são graciosas.
Garças são engraçadas
Grassando loucas no espelho d´água,
Grafando-o com seus bicos grafiteiros.
E quando encontram um peixe graúdo...
São gratas e dão Graças.

08 dezembro 2007

O Louco

Segue-me!,
Pois tu também és louco.
E de um tudo, sempre
Permanece um pouco,
E que loucura é maior
Ver da semente surgir
Um Jequitibá, colosso?
Segue-me, seu tolo!
Abandona as tuas certezas
Insoluvéis, os teus terrores
Injustificavéis, os teus sonhos
Irrealizáveis, insanos!
Vem ser comigo mais um mundano,
Um bêbado, um crente, um santo.
Vem ver comigo um mundo
Que ninguém mais vê.
Vem ter comigo a alegria
Incontida, a Fé concebida,
A noite e o dia sob teus pés.
Segue-me, simplesmente,
Que eu viajo pelo mundo
Sem vigiar meus passos -
Ele o faz por mim,
E esse cachorro que me segue -
Nem é meu,
Alerta, mais do que eu,
Reconhece os perigos do caminho.
Eu so faço contemplar estrelas.
Leve e eternamente solto...
Um louco!
Como são todos os vagabundos e poetas.