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31 julho 2008

Debaixo do Tamarindo (Augusto dos Anjos)




No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos.

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

07 agosto 2007

Asa de Corvo (Augusto dos Anjos)


Santo Expedito era comandante-chefe da XII Legião Romana, aquartelada na cidade de Melitene, hoje Armênia, no final do século III. Antes de sua conversão ao Cristianismo, tinha uma vida devassa. Quando Santo Expedito estava para se converter, apareceu-lhe um espírito do mal, na forma de um corvo, grasnando CRAS - que em latim significa AMANHÃ - mas esse grande santo pisoteou o corvo, bradando HODIE, que significa HOJE, confirmando sua urgente conversão.Cristão convertido, assim como toda a sua tropa, Expedito foi vítima da ira do imperador Diocleciano. A imporância de seu posto fazia dele um alvo especial do ódio do imperador. Foi flagelado até sangrar e depois decapitado pela espada.

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Asa de corvos carniceiros, asa,
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre ás vezes o espaço e cobre ás vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os revezes,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto á brasa,
Como os Goucourts, como os irmãos siamezes!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o panno preto
Que as famílias de lucto martyriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte - a costureira funerária-
Cose para o homem a última camisa!


06 junho 2007

O Vencedor (Augusto dos Anjos)

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo enfim ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!