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07 janeiro 2008

A Visita



Fechou-me a solidão como mortalha,
Fazendo paralíticos os meus sentidos.
Num negro e vasto limbo de amarras
Abateram-se sobre esses ombros lisos,
Fardos, pesos soltos a reabrir as chagas.
A Depressão, silenciosa Dama dessas horas,
Minha visita no corredor das madrugadas,
Que se por acaso me encontra entorpecido,
No leito sujo, quase adormecido
Por sobre pilhas de livros, cantando
Uma história que não conto agora,
É porque é uma velha conhecida
A visitar o paciente desse quarto.
Mas não traz sopas nem ungüentos
Só a Solidão em pratos rasos.
E como lhes transbordam os lamentos
Ao sabor acre daquela tirana senhora
Espreitando-me ao pé da cama
E aguardando a minha morte
Que não chega, mas também não tarda.

Afasta-te de mim, madame peçonhenta!
Segue o teu caminho atormentando os mortos!
Arranca do meu peito essa dor cinzenta!
Afaste-te, sorrateira, dessas cobertas coloridas,
Pois vejo tuas intenções acobertadas
Na ironia maligna desse teu riso tísico
E no dedilhar desses teus dedos tortos.
Chagas, dores, febres, cem feridas
E esse cheiro nauseante de enxofre
Que se espalha pelo espaço físico.
Será o meu martírio, será o meu açoite
Esperando enganar meu medo hirto
Do enganador que me aguarda?
Cheiro pútrido, odor embolorado,
Fumega a carne, o fogo não se apaga,
E eu aqui fitando as fuças do Diabo.
Socorre-me, longa e ingrata madrugada,
Por que não trazes logo a luz do dia?
Por que não me adormeces mais?
Por que tenho que ficar na companhia
Da Solidão, da Depressão
E desses seres infernais?

23 outubro 2007

Alma Embriagada

Na Noite alta,
Segue minha alma
Embriagada de ti.
Sem notar as pedras no caminho
Escuro, de becos e vielas,
Vai ela, tropeçando,
Bebendo a água das sarjetas,
Abrindo a testa no meio-fio
No meio de emoções confusas,
No meio termo entre te ter ou perder.
“Será Amor ou uma Grande Mentira?”
Pergunta que já fizeste e que agora me persegue.
Que suga meu sangue diluído em tristezas
E arrebenta em meus ouvidos sangrando-os
Mesmo no silêncio da Madrugada que chega
E que sempre me encontra só.
Somente embriagado de ti.

03 outubro 2007

A Soledade e a Plenitude



Não há um lugar,
Um sequer, nenhum somente.
Um lugar em que, solenemente,
Prenda-se o fio de minha vida.
Não há paisagens ou paragens de que,
Entre fotos e lembranças,
Eu guarde recordações saudosas -
Venturosas esperanças.
Não há sorrisos de que sinta falta,
Nem angústias em minha solidão.
Não lembro de beijos, cheiros, toques
Nada é, pois, prisão aos meus sentidos.
Nem há nada que me provoque
Ou fustigue a mansidão do meu castigo.
Sou um louco, um triste, um solitário,
Dirão outros por vezes ao me ver
Melancólico nesse sóbrio devaneio,
Sozinho num umbral negro e fecundo
Em busca de alguma seiva em minhas raízes.
Sou poeta, arcanjo, um santo, um vil,
Mas vivo essa loucura casta,
Ardente como uma febre juvenil,
De alma limpa e de corpo inteiro,
De peito aberto, à mostra as cicatrizes.
E sigo assim por esse e pelo outro mundo,
Como um confesso perdulário
Que tem somente a soledade e a plenitude -
- E para quem isso já basta!

02 fevereiro 2007

A Independência da Solidão

O que me importa unicamente é o que tenho de fazer, não o que pensam os outros. Esta regra, igualmente árdua na vida imediata como na intelectual, pode servir para a distinção total entre a grandeza e a baixeza. E é tanto mais dura quanto sempre se encontrarão pessoas que acreditam saber melhor do que tu qual é o teu dever. É fácil viver no mundo de conformidade com a opinião das gentes; é fácil viver de acordo consigo próprio na solidão; mas o grande homem é aquele que, no meio da turba, mantém, com perfeita serenidade, a independência da solidão.

Ralph Waldo Emerson, in 'Essays'