Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
.
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
.
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
.
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
25 agosto 2007
20 agosto 2007
O Guardião
Abre-te Sésamo lacrado!
Segredo Hermético guardado
De um nefasto andarilho errante.
Guarda-te à porta dos mistérios.
Porta-te, Guardião Etéreo,
Impávido e aguarda
Chegarem as hordas do Inferno.
Segue o imaculado infante
Tombando as bestas sanguinárias,
Esperando que as cavalarias templárias
Lhe socorram no derradeiro instante.
Mesmo em meio ao fogo lancinante,
Faz-te em espada e lança - te,
E sendo um raio fulminante, combate
Manchando de vermelho sangue
As planícies sombrias de Hécate.
Deixa passar a pomba e o cordeiro.
Esmaga sem dó o corvo e o morcego.
Vai e retorna ao Olimpo do qual tu mesmo é Zeus.
Pois se o Apocalipse te chegasse hoje,
Em tua bela e já franzida fronte
Não encontraria nenhuma falsa marca de Deus.
Segredo Hermético guardado
De um nefasto andarilho errante.
Guarda-te à porta dos mistérios.
Porta-te, Guardião Etéreo,
Impávido e aguarda
Chegarem as hordas do Inferno.
Segue o imaculado infante
Tombando as bestas sanguinárias,
Esperando que as cavalarias templárias
Lhe socorram no derradeiro instante.
Mesmo em meio ao fogo lancinante,
Faz-te em espada e lança - te,
E sendo um raio fulminante, combate
Manchando de vermelho sangue
As planícies sombrias de Hécate.
Deixa passar a pomba e o cordeiro.
Esmaga sem dó o corvo e o morcego.
Vai e retorna ao Olimpo do qual tu mesmo é Zeus.
Pois se o Apocalipse te chegasse hoje,
Em tua bela e já franzida fronte
Não encontraria nenhuma falsa marca de Deus.
19 agosto 2007
Ralph Waldo Emerson
"Ser você mesmo em um mundo que está constantemente
tentando fazer de você outra coisa é a maior realização."
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Cidade Mulher (Noel Rosa)
Domingo nublado em São Paulo; bateu uma saudade do meu Rio de Janeiro. Vou de Noel, de Vila Isabel, pra recordar um pouco a minha cidade.
..........
Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.
..........
Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.
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18 agosto 2007
Honoré de Balzac

Dentre todas as criaturas, a mulher é a mais perfeita:
é uma criação transitória entre o homem e o anjo
18 de agosto: 157 anos do falecimento do escritor francês
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Congresso Internacional do Medo (Carlos Drummond de Andrade)
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medoe sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medoe sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
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Um Beijo (Olavo Bilac)
Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior...Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
Batismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto...
Ou talvez o pior...Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
Batismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto...
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16 agosto 2007
Corredeiras
Mira essas colinas verdes
De onde o vento espalha
Um movimento ondulante pelos ares.
Mira esse riacho doce
E a correnteza a murmurar
Doces canções de amores
Que até hoje escuto no cair da noite.
Daquelas noites que perdemos tempo -
Daquele tempo que nos perdemos em nós
Tentanto nos encontrar depois de tantos desencontros.
Na beira do doce riacho
Eu cantei teu nome, colhi estrelas e cultivei tempestades.
E tu me destes a melodia de teu coração
Enquanto eu adormecia ainda arfando
Sobre o teu seio nu.
Naquelas noites quase insones
O mundo era só nosso - nosso pequeno mundo
E o tempo escorria ligeiro
Como a água entre as pedras do rio.
Como eu que também percorria afoito
As pedras lisas de tuas pernas e coxas.
Mira esse último luar que ja não encontra nós dois
Ali, no leito, no rio...
Recorda também essa saudade
Que me desperta e remete ao passado.
Que me ensinou a amar todas as corredeiras e chuvas.
De onde o vento espalha
Um movimento ondulante pelos ares.
Mira esse riacho doce
E a correnteza a murmurar
Doces canções de amores
Que até hoje escuto no cair da noite.
Daquelas noites que perdemos tempo -
Daquele tempo que nos perdemos em nós
Tentanto nos encontrar depois de tantos desencontros.
Na beira do doce riacho
Eu cantei teu nome, colhi estrelas e cultivei tempestades.
E tu me destes a melodia de teu coração
Enquanto eu adormecia ainda arfando
Sobre o teu seio nu.
Naquelas noites quase insones
O mundo era só nosso - nosso pequeno mundo
E o tempo escorria ligeiro
Como a água entre as pedras do rio.
Como eu que também percorria afoito
As pedras lisas de tuas pernas e coxas.
Mira esse último luar que ja não encontra nós dois
Ali, no leito, no rio...
Recorda também essa saudade
Que me desperta e remete ao passado.
Que me ensinou a amar todas as corredeiras e chuvas.
13 agosto 2007
4o. Motivo da rosa (Cecília Meireles)
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
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07 agosto 2007
Os Sapos (Manuel Bandeira)
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!
O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . ."
Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei" - "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!"
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- "A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo."
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;
Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!
O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . ."
Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei" - "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!"
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- "A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo."
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;
Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio.
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O Navio Negreiro (Castro Alves)

...Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
...
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Asa de Corvo (Augusto dos Anjos)
Santo Expedito era comandante-chefe da XII Legião Romana, aquartelada na cidade de Melitene, hoje Armênia, no final do século III. Antes de sua conversão ao Cristianismo, tinha uma vida devassa. Quando Santo Expedito estava para se converter, apareceu-lhe um espírito do mal, na forma de um corvo, grasnando CRAS - que em latim significa AMANHÃ - mas esse grande santo pisoteou o corvo, bradando HODIE, que significa HOJE, confirmando sua urgente conversão.Cristão convertido, assim como toda a sua tropa, Expedito foi vítima da ira do imperador Diocleciano. A imporância de seu posto fazia dele um alvo especial do ódio do imperador. Foi flagelado até sangrar e depois decapitado pela espada.
....................................
Asa de corvos carniceiros, asa,
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre ás vezes o espaço e cobre ás vezes
O telhado de nossa própria casa...
Perseguido por todos os revezes,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto á brasa,
Como os Goucourts, como os irmãos siamezes!
É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o panno preto
Que as famílias de lucto martyriza...
É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte - a costureira funerária-
Cose para o homem a última camisa!
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre ás vezes o espaço e cobre ás vezes
O telhado de nossa própria casa...
Perseguido por todos os revezes,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto á brasa,
Como os Goucourts, como os irmãos siamezes!
É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o panno preto
Que as famílias de lucto martyriza...
É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte - a costureira funerária-
Cose para o homem a última camisa!
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05 agosto 2007
21 julho 2007
E.E. Commings
Eu gosto do seu corpo
Eu gosto de que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quano lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar
Eu gosto de que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quano lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar
Vinicius de Moraes
Amo-te
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude .
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude .
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10 julho 2007
Da Praia

Eu já nem me lembro
Daquela areia branca, aquele mar,
Aquela espuma ondulante
Nas rochas a se precipitar.
E das pedras portuguesas?
Na branca e na preta
Que quando criança eu adorava surfar,
Braços abertos, equilibrista do calçadão
Fazendo graça nas manhãs de domingo.
Do som dos molinetes na ponta do Leme
Pouco chega aos meus ouvidos
Desacostumados a esses sons despreocupados.
E das cores das cangas das morenas
Pouco se lembram meus olhos cansados,
Ardendo poluídos por outros ares e olhares.
E aquele cheiro de protetor solar...
De queijo coalho...
Ou simplesmente da brisa fresca do mar.
Das tardes de diferentes matizes
No céu a derramar,
V a g a r o s a m e n t e,
Um anoitecer estrelado sobre a minha cidade.
Não há aplausos que bastem
Para aquele pôr-do-sol.
Não há lembrança que console
A minha eterna saudade.
Daquela areia branca, aquele mar,
Aquela espuma ondulante
Nas rochas a se precipitar.
E das pedras portuguesas?
Na branca e na preta
Que quando criança eu adorava surfar,
Braços abertos, equilibrista do calçadão
Fazendo graça nas manhãs de domingo.
Do som dos molinetes na ponta do Leme
Pouco chega aos meus ouvidos
Desacostumados a esses sons despreocupados.
E das cores das cangas das morenas
Pouco se lembram meus olhos cansados,
Ardendo poluídos por outros ares e olhares.
E aquele cheiro de protetor solar...
De queijo coalho...
Ou simplesmente da brisa fresca do mar.
Das tardes de diferentes matizes
No céu a derramar,
V a g a r o s a m e n t e,
Um anoitecer estrelado sobre a minha cidade.
Não há aplausos que bastem
Para aquele pôr-do-sol.
Não há lembrança que console
A minha eterna saudade.
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Sossega, coração! Não desesperes! (Fernando Pessoa)
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa, 2-8-1933.
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa, 2-8-1933.
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05 julho 2007
A dama na janela
Mas, ah! nenhuma teve o teu encanto, Nem teve olhar como esse olhar, tão cheio
De luz tão viva, que abrasasse tanto!
(Olavo Bilac)
Lá estava ela,
Flor de jasmim incandescente
Repousada inocente
Na sacada da janela.
Nem poderia imaginar
Que andando na calçada em frente
Um jovem andarilho tinha em mente
Mil pecados sem ousar contar.
Aceno meio displicente.
Ela responde com um sorriso no olhar.
A lua crescente e quase cheia
Lhe aumentava o brilho dos cabelos
Negros, novelos profundamente abissais.
E o seu perfume tinha o hálito
De um campo de rosas vermelhas
Na aurora das manhãs outonais.
As finas mãos e aqueles leves cotovelos
Tão alvos, tão belos, tão meus em pensamento,
Tocavam o azul da moldura da aquarela
De onde o seu sorriso,
Colar de Pérolas,
Iluminado, iluminava à noite
As ruas de pedra do velho casarão em Tiradentes.
E na janela, aberta pro infinito,
Nem mesmo a Via Láctea cintilaria como ela.
Tal qual uma chama num quadro fluorescente
Paira, linda, a minha donzela.
Ó bailarina dos meus sonhos!
Ó Deus dos mundos!
Quem fez esta mulher tão bela?
Flor de jasmim incandescente
Repousada inocente
Na sacada da janela.
Nem poderia imaginar
Que andando na calçada em frente
Um jovem andarilho tinha em mente
Mil pecados sem ousar contar.
Aceno meio displicente.
Ela responde com um sorriso no olhar.
A lua crescente e quase cheia
Lhe aumentava o brilho dos cabelos
Negros, novelos profundamente abissais.
E o seu perfume tinha o hálito
De um campo de rosas vermelhas
Na aurora das manhãs outonais.
As finas mãos e aqueles leves cotovelos
Tão alvos, tão belos, tão meus em pensamento,
Tocavam o azul da moldura da aquarela
De onde o seu sorriso,
Colar de Pérolas,
Iluminado, iluminava à noite
As ruas de pedra do velho casarão em Tiradentes.
E na janela, aberta pro infinito,
Nem mesmo a Via Láctea cintilaria como ela.
Tal qual uma chama num quadro fluorescente
Paira, linda, a minha donzela.
Ó bailarina dos meus sonhos!
Ó Deus dos mundos!
Quem fez esta mulher tão bela?
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03 julho 2007
Rouxinol
Hail to thee, blithe spirit! Bird thou never wert!
Shelley
Nunca fui de entender de sentimento.
Mas nesse canto, não mais que emudecia.
Calaram-se também o corvo, a cotovia,
Pois rouxinol vai murmurar seu sofrimento.
O pássaro tristonho pendurado ao vento
Voava pro horizonte enquanto anoitecia
Cantando ao longe um canto que sumia,
Que do meu quarto acompanhava atento.
Ele, ancorado na descampada ermida,
Do telhado lembrava milagrosamente à vida
Que na tristeza jamais estamos sós.
E o rouxinol no mavioso canto
Não saberia que seu sofrido pranto
É só o eco da minha própria voz.
(julho/07)
Shelley
Nunca fui de entender de sentimento.
Mas nesse canto, não mais que emudecia.
Calaram-se também o corvo, a cotovia,
Pois rouxinol vai murmurar seu sofrimento.
O pássaro tristonho pendurado ao vento
Voava pro horizonte enquanto anoitecia
Cantando ao longe um canto que sumia,
Que do meu quarto acompanhava atento.
Ele, ancorado na descampada ermida,
Do telhado lembrava milagrosamente à vida
Que na tristeza jamais estamos sós.
E o rouxinol no mavioso canto
Não saberia que seu sofrido pranto
É só o eco da minha própria voz.
(julho/07)
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