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10 julho 2007

Da Praia


Eu já nem me lembro
Daquela areia branca, aquele mar,
Aquela espuma ondulante
Nas rochas a se precipitar.
E das pedras portuguesas?
Na branca e na preta
Que quando criança eu adorava surfar,
Braços abertos, equilibrista do calçadão
Fazendo graça nas manhãs de domingo.
Do som dos molinetes na ponta do Leme
Pouco chega aos meus ouvidos
Desacostumados a esses sons despreocupados.
E das cores das cangas das morenas
Pouco se lembram meus olhos cansados,
Ardendo poluídos por outros ares e olhares.
E aquele cheiro de protetor solar...
De queijo coalho...
Ou simplesmente da brisa fresca do mar.
Das tardes de diferentes matizes
No céu a derramar,
V a g a r o s a m e n t e,
Um anoitecer estrelado sobre a minha cidade.
Não há aplausos que bastem
Para aquele pôr-do-sol.
Não há lembrança que console
A minha eterna saudade.

05 junho 2007

Musa Consolatrix (1864) (Machado de Assis)


Uma lembrança de nosso maior escritor, Machado de Assis. Publico um poema em homenagem ao excelente artigo do blog Literatura & Rio de Janeiro do professor Ivo Korytowski sobre o Morro do Livramento com fotos da região. O blog do Ivo está na minha sessão de sites favoritos sobre o Rio de Janeiro aí ao lado. Acesso todos os dias e recomendo-o aos apaixonados pela cidade maravilhosa. Excelente!

Musa Consolatrix (1864)

Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, - e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!

04 junho 2007

Só dói quando eu Rio (Moacyr Luz e Aldir Blanc)



Só fico à vontade
Na minha cidade
Volto sempre a ela
Feito criminosa
Doce e dolorosa
A minha história
Escorre aqui

Há quem não se importe
Mas a Zona Norte
É feito cigana
lendo a minha sorte
Sempre que nos vemos ela diz
Quanto eu sofri

E Copacabana
A linda meretriz-princesa
Loura mãe-de-santo
Com sua gargantilha acesa

Ela me ensinou pureza e pecado
A respiração do mar revoltado...
Rio de Janeiro
favelas no coração

09 maio 2007

Rua do Riachuelo




















Rua do Riachuelo em 1915 e 2006


Em minha última visita ao Rio de Janeiro, voltei a andar pela Rua do Riachuelo nas proximidades do Bairro de Fátima onde residia antes de vir morar em São Paulo. Foi com uma agradável surpresa que reparei tapumes cercando o chafariz no número 173 onde funciona a fabrica das Persinanas Planalto. Há cerca de 2 anos eu mesmo enviei email para a Prefeitura e para o IPHAN solicitando a reforma do monumento em virtude das obras de revitalização daquele área que estavam sendo realizadas, mas pareciam não contemplar a antiga bica.

A história da rua e do chafariz, assim como tantas outras do centro do Rio de Janeiro, remonta ao século XVI, XVII. Reproduzo um pequeno trecho por curiosidade. Mais informações podem ser encontradas nos links na sessão Rio de Janeiro.

Na segunda metade do século XVI, as pedras jesuítas já possuíam dois engenhos de açúcar: o 'Velho", no local onde hoje se encontra a Igreja de São Francisco do Engenho Velho, na Rua São Francisco Xavier, e o "Novo", que deu o nome ao atual subúrbio de Engenho Novo.

O acesso a eles se fazia através de um caminho que, saindo dos Arcos, contornava o Morro do Desterro (hoje Morro de Santa Teresa) e atingia a Lagoa da Sentinela (compreendendo até o atual largo onde se cruzam a Avenida Mem de Sá, a Rua Frei Caneca e a Rua de Sant'Ana), procurando a antiga aldeia de Martim Afonso, o Araribóia. Daí, a trilha seguia rumo aos engenhos e a São Cristóvão. Por esse motivo recebeu, originariamente, as denominações de Caminho que vai para o Engenho Pequeno, Caminho para a Lagoa dos Sentinela e Caminho que vai pare São Cristóvão. No final do século XVII, à esquerda deste caminho, havia uma grande chácara que possuía uma bica para uso dos viajantes. Em conseqüência, passou a ser conhecido como Caminho da bica. Tortuoso, cheio de barrancos e atoleiros que dificultavam a passagem dos animais e muitas vezes os matavam, o Caminho da Bica mudou seu nome para Caminho (ou Estrada) de Mata-Cavalos. Em 1848, de estrada passou a ser rua. Tendo sido substituída aquela primitiva bica por um chafariz, em 1772, e sendo dotada de um outro, construído em 1817 pelo Desembargador do Paço e Intendente Geral da Polícia, Paulo Fernandes Viena, após conseguir a doação do terreno do Tenente Coronel Cláudio José Pereira da Silva. Segundo o arquiteto Augusto Carlos da Silva Telles, as dimensões do Chafariz foram reduzidas pelas várias reformas, "que lhe conservaram, no entanto, em muita boa cantaria, o tanque, as pilastras e a cartela com os dizeres: - O Rei por bem de seu povo M.F.E.O (mandado fazer e oferecido) pela Polícia - 1817".

A rua foi aberta em terrenos altos e secos quando a maioria das ruas cariocas se constituía ainda em verdadeiros pantanais logo se transformou a Rua de Mata-Cavalos numa das preferidas da gente rica ou fidalga. Caracterizava muito bem a vida urbana dos anos 800, no Rio de Janeiro. De tal modo que Machado de Assis faz-lhe várias referencias em suas obras, localizando nela, entra tantos personagens, Capitu, a protagonista de Dom Casmurro, um dos mais discutidos romances da literatura brasileira.

Em 4\7\1875, numa homenagem "aos feitos brilhantes da armada nacional no dia 11 de junho nas águas do Paraná", durante a Guerra do Paraguai, a Câmara Municipal propõe a mudança do nome da Rua de Mata-Cavalos para Rua Riachuelo. Onze dias após, a proposta foi aprovada por portaria do ministro do Império.

Bastante ligada à vida do antigo Morro do Desterro, a Rua Riachuelo tem suas tradições e histórias. Antes dos bondes sobre os Arcos, era por ela que melhor se subia a Senta Teresa. Na altura da Rua Francisco Muratori de nossos dias, inaugurou-se, em 1883, um elevador pare Paula Matos, servido por uma torre de 38 m. Nas suas proximidades na Ladeira do Castro, ficava a estação do plano inclinado do Engenheiro Januário Cândido de Oliveira, que deu origem ao nome da travessa que faz a conexão entre a ladeira e a Rua Monte Alegre.Nesta, moraram e morreram o republicano Benjamim Constante e o Conselheiro Andrade Figueira, monarquista, preso em 1900 sob a acusação de chefiar uma conspiração contra a República. Em 1937, ainda na Rua Monte Alegre, foi edificada, pelos russos brancos, a Igreja Ortodoxa de Santa Zinaida. Quase na sua esquina com Riachuelo, o povo podia tomar banhos frios de cachoeira, numa casa famosa do Rio Antigo, com vasta chácara onde havia um pequeno jardim zoológico.

Ao tempo de Dom Pedro II, na Rua Silva Manuel (atual André Cavalcanti) ficava o consultório do Dr. Mateus de Andrade, médico que, em 1869, neste local e com a ajuda de seu assistente, Dr. Andrade Pertence operou a perna do poeta Castro Alves. Em 1870, Transferiu-se para a Rua Mata-Cavalo definitivamente, o hospital da Ordem do Carmo, fundado em 1773. Em 1930, a Rua Riachuelo assistiu a um crime político: um paraibano exaltado matou a tiros o Deputado João Suassuna, julgando-o responsável pelo assassinato de João Pessoa, no Recife.

10 janeiro 2007

Noite Carioca

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa.
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido
[tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é
[camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos
[bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos
[criouléus suarentos

O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que
[transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.

Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série Ângulos. In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959