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11 agosto 2008

Infância e Temporal


“Menino à Janela” – Murillo, Galeria Nacional de Londres



Grades de ferro e temporal.
E eu olhava o mundo da janela
Embaçada pela minha respiração.
Lá fora, o céu cinzento.
Lá dentro, solidão de menino
Vendo as pessoas correndo da chuva,
Tentando um abrigo sob as marquises.
Quanta tolice!, eu pensava...
Quando o que eu mais queria
Era correr com o vento.
E a praia logo ali como um convite,
E o mar em ondas me chamando,
Sucessivas vezes quebrando
Meu nome e sobrenome sobre as pedras.
Mas eu ali, preso e casto, pois
Nem uma gota de orvalho maculara
O desejo por detrás daquelas grades.
Riscos de fogo pelo céu invadem,
E conto o tempo entre clarões e trovões,
Agarrado ao leme do meu návio-janela
Mãe, solta-me na chuva, por favor.
Ser criança é um temporal de fim de tarde...
Imaginação que urge e arde,
E quando se dá conta já passou.

24 novembro 2007

Pretérito Perfeito


" O segredo, meu filho, é um só:
liberdade. Aqui não há coleiras.
A maior desgraça do mundo é a coleira.
E como há coleiras espalhadas no mundo."

(Emília, boneca de pano)

Há coisas em minha garagem
Que sempre me esperam adormecidas.
Coisas da minha vida
Que contam histórias de quem eu sou.
No velho baú de madeira
Guardo o passado por baixo
De uma camada de poeira;
Guardo um mundo particular.
E não é difícil encontrar,
Vez por outra nele debruçado,
Objetos, cores e sons familiares.
Outro dia voltei a ele
Que me recebeu com aquela saudação toda sua,
Aquele rangido, um velho conhecido,
Das dobradiças resistindo a minha visita.
E tão logo ele se abriu, meus olhos voltaram ao tempo
Em que eu não tinha barba nem aborrecimentos.
No amontoado de coisas empilhadas
Como camadas de solo que identificam as eras,
Eu fui reencontrando meu tempo desde menino.
Surgiram um peão, figurinhas da seleção,
O meu time de botão e um tabuleiro de gamão.
Depois foi a vez de reencontrar as velhas peças de xadrez,
Um brasão escocês e meu primeiro dicionário de inglês.
Um protetor (não usado) de sol, a baqueta e o tarol -
Basta um leve toque para ressuscitar 10 carnavais.
E dormindo lado a lado, três livros de Jorge Amado.
Uma lata com bolinhas de gude, um dominó, um vidro de cerol,
Uma luminária do aquário, um filtro, um galeão espanhol.
E ainda entre folhas de papel vegetal, bolas de Natal.
Dentro de uma sacola plástica reencontro Monteiro Lobato.
Caçadas de Pedrinho, Memórias da Emília, Reinações de Narizinho.
A minha garagem guarda um universo que é só meu
E o meu passado cheira a madeira e tem som de tambor.
E lá vou eu novamente...como se voltasse a ter 8 anos,
Brincando dentro de mim com o menino que ainda sou.