A massa nunca se eleva ao padrão do seu melhor membro;
pelo contrário, degrada-se ao nível do pior.
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14 setembro 2008
28 janeiro 2007
Pensamento em Boa Forma
Cumpre-nos não só averiguar porque se gasta a vida, dia após dia, e o pouco que resta à proporção vai diminuindo. Pensemos também no seguinte: supondo que a um homem toque viver longa vida, uma questão permanece escura: a de saber se a sua inteligência será capaz, tempo adiante, sem defecção, de compreender os problemas e a teoria que apontam ao conhecimento das coisas divinas e humanas. Se ele pega a cair em estado de infantilidade, a respiração, a alimentação, a imaginação, os gestos impulsivos e as outras funções do mesmo género não lhe faltarão necessariamente; mas dispor de si, obtemperar exactamente a todas as exigências morais, analisar as aparências, ver se não será já tempo de entrouxar e ir para melhor estão à altura de responder a necessidades desta ordem - para tudo isso se necessita de um raciocínio em boa forma; e o raciocínio, há que tempos perdeu a chama e a agudeza. Cumpre-nos pois andar ligeiros, não só porque a morte se avizinha a cada momento mas ainda porque antes de morrer perdemos a capacidade de conceber as coisas e de lhes prestar atenção.
Marco Aurélio (Imperador Romano), in "Pensamentos"
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12 janeiro 2007
A Falácia do Sucesso (Victor Hugo)
A cada vez que sou obrigado a assistir um trecho de BBB (necessidade pelo trabalho), penso na inutilidade dessas coisas que aí estão boiando na TV, nos livros e revistas. Ontem aguardava na recepção de uma clinica e, sem alternativa, fiquei folheando as revistas para matar o tempo. De todas, sem exceção, se fosse possível rasgar o que não servia para absolutamente nada (vontade não me faltou), restaria pouco mais de 20% da edição original.
Há coisas tão absurdas que você simplesmente fecha a revista para depois abrir e ver se ainda estão lá numa tola esperança que certas coisas não tenham passado de ilusão. Há instruções de tudo. Descobri que criaram um manual de instruções para a vida e ele está nas páginas das revistas femininas (algumas publicações masculinas já prometem essa felicidade se seguidos todos os passos) e nos livros de auto-ajuda (mas isso também não era novidade). Só Victor Hugo para explicar:
"Abominável coisa é o bom êxito, seja dito de passagem. A sua falsa parecença com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom sucesso equivale à supremacia. A vítima dos logros do triunfo, desse menecma da habilidade, é a história. Só Tácito e Juvenal se lhe opõem. Existe na época e sente uma filosofia quase oficial, que envergou a libré do bom êxito e lhe faz o serviço da antecâmara. Fazei por serdes bem sucedido, é a teoria. Prosperidade supõe capacidade. Ganhai na lotaria, sereis um homem hábil. Quem triunfa é venerado. Nascei bem-fadado, não queirais mais nada. Tende fortuna, que o resto por si virá; sede feliz, julgar-vos-ão grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excepções imensas que fazem o esplendor de um século, a admiração contemporânea é apenas miopia. Duradora é ouro. Pouco importa que não sejais ninguém, contanto que consigais alguma coisa.
O vulgo é um narciso velho, que se idolatra a si próprio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Moisés, Esquilo, Dante, Miguel Ângelo ou Napoleão, decreta-a a multidão indistintamente e por unanimidade a quem atinge o alvo que se propôs, seja no que for. Que um tabelião se transforme em deputado; que um falso Corneille componha Tiridates; que um eununco chegue a possuir um harém; que um Prudhomme militar ganhe por casualidade a batalha decisiva de uma época; que um boticário invente solas de papelão para o exército de Samba e Mosa, e, vendendo-as por couro, consiga arranjar uma fortuna de quatrocentos mil francos de rendimento; que qualquer pobretão case com a usura e a faça parir sete ou oito milhões, de que ele é pai e ela mãe; que qualquer pregador arranje a ser bispo, à força de falar pelo nariz; que o mordomo de qualquer casa grande saia dela tão rico, que obtenha a pasta das Finanças, os homens chamam a isso Génio, do mesmo modo que chamam Beleza à cara de Mousqueton e Majestade à aparência de Cláudio. Confundem com as constelações do abismo as estrelas que os gansos imprimem com as patas na superfície mole do lodaçal."
Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'
Há coisas tão absurdas que você simplesmente fecha a revista para depois abrir e ver se ainda estão lá numa tola esperança que certas coisas não tenham passado de ilusão. Há instruções de tudo. Descobri que criaram um manual de instruções para a vida e ele está nas páginas das revistas femininas (algumas publicações masculinas já prometem essa felicidade se seguidos todos os passos) e nos livros de auto-ajuda (mas isso também não era novidade). Só Victor Hugo para explicar:
"Abominável coisa é o bom êxito, seja dito de passagem. A sua falsa parecença com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom sucesso equivale à supremacia. A vítima dos logros do triunfo, desse menecma da habilidade, é a história. Só Tácito e Juvenal se lhe opõem. Existe na época e sente uma filosofia quase oficial, que envergou a libré do bom êxito e lhe faz o serviço da antecâmara. Fazei por serdes bem sucedido, é a teoria. Prosperidade supõe capacidade. Ganhai na lotaria, sereis um homem hábil. Quem triunfa é venerado. Nascei bem-fadado, não queirais mais nada. Tende fortuna, que o resto por si virá; sede feliz, julgar-vos-ão grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excepções imensas que fazem o esplendor de um século, a admiração contemporânea é apenas miopia. Duradora é ouro. Pouco importa que não sejais ninguém, contanto que consigais alguma coisa.
O vulgo é um narciso velho, que se idolatra a si próprio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Moisés, Esquilo, Dante, Miguel Ângelo ou Napoleão, decreta-a a multidão indistintamente e por unanimidade a quem atinge o alvo que se propôs, seja no que for. Que um tabelião se transforme em deputado; que um falso Corneille componha Tiridates; que um eununco chegue a possuir um harém; que um Prudhomme militar ganhe por casualidade a batalha decisiva de uma época; que um boticário invente solas de papelão para o exército de Samba e Mosa, e, vendendo-as por couro, consiga arranjar uma fortuna de quatrocentos mil francos de rendimento; que qualquer pobretão case com a usura e a faça parir sete ou oito milhões, de que ele é pai e ela mãe; que qualquer pregador arranje a ser bispo, à força de falar pelo nariz; que o mordomo de qualquer casa grande saia dela tão rico, que obtenha a pasta das Finanças, os homens chamam a isso Génio, do mesmo modo que chamam Beleza à cara de Mousqueton e Majestade à aparência de Cláudio. Confundem com as constelações do abismo as estrelas que os gansos imprimem com as patas na superfície mole do lodaçal."
Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'
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10 janeiro 2007
Nada Pior que a Frivolidade
A frivolidade, meu amigo, aniquila os homens que a ela se apegam; talvez não haja vício que não se deva preferir a ela, pois ainda é melhor ser vicioso do que não ser nada. O nada está abaixo do tudo, o nada é o maior dos vícios; e que não me diga que é ser alguma coisa o ser frívolo: é não ser nem para a virtude, nem para a glória, nem para a razão, nem para os prazeres apaixonados. Direis talvez: gosto mais de um homem nulo para qualquer vitude do que daquele que só existe para o vício. Eu vos responderei: aquele que é nulo para a virtude não está por isso livre dos vícios; ele pratica o mal por leviandade e por fraqueza; ele é o instrumento dos maus que têm mais génio. Ele é menos perigoso do que um homem seriamente empenhado no mal, isso é possível; mas será necessário ser grato ao gavião por ele só destruir os insectos e por ele não destruir os rebanhos e os campos como os leões e as águias? Um homem corajoso e dotado de sabedoria não teme um homem mau; mas não pode impedir-se de desprezar um homem frívolo.
Amai pois, meu amável amigo, segui os prazeres que vos procuram e que a razão, a natureza e as graças fizeram para vós. Ainda uma vez, não cabe a mim vo-los proibir; mas não acrediteis que se encontre satisfação sólida na ociosidade, na folia, na fraqueza e na afectação.
Luc de Clapiers Vauvenargues, in 'Das Leis do Espírito'
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08 janeiro 2007
É por ter Espírito que me Aborreço
É preciso esconjurar, da forma que nos for possível, este diabo de vida que não sei porque é que nos foi dada e que se torna tão facilmente amarga se não opusermos ao tédio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. É preciso, numa palavra, agitar este corpo e este espírito que se delapidam um ao outro na estagnação e numa indolência que se confunde com um torpor. É preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho - e reciprocamente: só assim estes parecerão, ao mesmo tempo, agradáveis e salutares. Um desgraçado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadiáveis, deve ser, sem dúvida, extremamente infeliz, mas um indivíduo que não faça mais do que divertir-se não encontrará nas suas distracções nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o tédio e que este o prende pelos cabelos - como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detrás de cada distracção e espreitasse por cima do nosso ombro.
Não julgue, cara amiga, que eu só porque trabalho regularmente estou isento das investidas deste terrível inimigo; penso que, quando se tem uma certa disposição de espírito, é preciso termos uma imensa energia de forma a não nos deixarmos absorver e conseguir escapar, graças à nossa força de vontade, à melancolia em que caímos continuamente. O prazer que sinto, neste momento, em dialogar consigo acerca deste sentimento é mais uma prova de como eu me procuro agarrar, avidamente, sempre que tenho forças para isso, a todas as oportunidades para ocupar o espírito (ainda que seja referindo-me a este tédio, que procuro combater).
Sempre pensei que havia tempo a mais. Atribuo em grande parte este sentimento ao prazer que quase sempre encontrei no próprio trabalho: os verdadeiros ou pretensos prazeres que se lhe sucediam não contrastavam talvez muito com a fadiga que me comunicava o trabalho - fadiga que a maior parte dos homens sente duramente. Não tenho dificuldade em imaginar o prazer que deve sentir nas suas horas de repouso essa multidão de homens que vemos vergados sob trabalhos desencorajadores - e não me refiro apenas aos pobres, que têm de ganhar o seu pão quotidiano, mas também aos advogados, aos funcionários, submersos pela papelada e ocupados com encargos fastidiosos ou que não lhe dizem respeito.
No entanto, também é verdade que a maior parte desses indivíduos não têm problemas com a imaginação e vêem nas suas ocupações maquinais uma maneira como qualquer outra de ocupar o tempo. E serão tanto menos infelizes quanto mais medíocres forem. Para me consolar, termino com este último axioma: que é por ter espírito que me aborreço.
(Eugène Delacroix, in 'Diário')
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Popularidade
“A popularidade é para os manequins. “O caminho dos Deuses é rochoso e escarpado”, dizia Porfírio. Abri vosso Marco Antônio. Ao juízo dos antigos, o grande homem era aquela que desdenhava o brilho, e resistia aos golpes da fortuna. Preferiam o último navio chegado muito tarde devido a maré, lutando contra os ventos e as vagas, sem mastros e sem cordame, a seus companheiros chegados ao porto com as bandeiras ondeantes e os fogos da alegria.”
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Ralph Waldo Emerson
07 janeiro 2007
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